Carta à Ministra da Administração Interna

Cara Constança Urbano de Sousa,

Escrevo-lhe com a máxima reverência, mas também com a máxima revolta de quem desespera com tudo o que vê acontecer ao seu redor. Escrevo-lhe na verdade porque tenho uma certa pena de si. Ter-lhe-ão oferecido um presente envenenado, um cargo que parece bom, mas que exige muito.  Exige liderança, exige força e exige carisma de quem diariamente tem que lidar com forças de autoridade, de segurança pública e proteção civil.

Sim, Constança foi a si que o Primeiro Ministro António Costa (ele que também esteve com essa pasta) entregou a proteção de Portugal. É duro escrever, deve ser duro ler. Mas, é a verdade, foi a si. E quanto a isso não há desculpas.

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A postura e a linguagem corporal diminuída de Constança Urbano de Sousa (fotografia- Marcos Borga / Visão)

Além de tudo isto, para este cargo é preciso saber comunicar muito e bem, coisa para a qual a Constança não tem a mínima habilidade, nem os seus assessores a terão conseguido ensinar. Estarei disponível se precisar. Acredito que os meus alunos também lhe conseguiriam dar uma ou outra dica. Com eles recordei o episódio: quando na noite do incêndio na Sertã (se não me falha a memória…foram tantos) decidiu fazer uma conferência de imprensa/comunicado de última hora aos jornalistas sem novidades para dar (às 2 da manhã!). Eu percebo. Não é fácil.

Sabe Constança, nós portugueses não pedimos muito, só queremos que cuidem de nós e nem levantamos muitas ondas, nem nos manifestamos muito mesmo quando a austeridade e a má governação nos deixaram de bolsos vazios e com mais impostos a pagar. Porém, Constança, nós portugueses valorizamos a nossa família, os nossos amigos, o nosso quinhão de terra em sol plantado. Nós queremos estar em paz e ano após ano, somos bombardeados por incêndios, por crimes que lesam a pátria, destroem os nossos bens e que matam pessoas. Ouvimos falar na limpeza das matas, de dar melhores condições aos bombeiros e nada acontece. Constança, ainda se lembra que em 2014 “bombeiro” foi a palavra do ano. Porque será? Quer pensar comigo? Se calhar não é preciso um desenho, pois não? Fico surpreendido, abismado, estarrecido com a coerência que nos assalta do seu discurso. Ficam dúvidas, dúvidas. Sempre dúvidas.

Onde é que está o plano para resolver isto? Qual é a solução? O que se vai fazer? Desde Pedrógão, quais foram as medidas? Vamos voltar a culpar o SIRESP? Ou vamos deixar que seja o S. Pedro e a chuva a resolver o assunto?

Constança viu bem as imagens de ontem? Viu? Já informaram as pessoas do que haviam de fazer? Já? Já informaram se devíamos ou não publicar imagens nas redes sociais? Pois, pois não. Era só uma nota. Temos que ser “resilientes”- foi essa expressão que usou não foi?

Constança, diga-nos: QUEM É QUE SAI A GANHAR COM ISTO? Alguém tem que ser e não há-de ser apenas “um alguém isolado”.

Pois é, pois é, Constança, lendo o artigo da  Visão falou que não é tempo de reagir. Está enganada. É sim tempo de reagir e ferozmente, mas de forma fria, calculada e assertiva. O tempo da proatividade já lá vai..há muito. Agora deixe-me dizer-lhe, tenho imensa, mesmo imensa pena que não tenha ido de férias. É que me parece que precisa de longas férias. Sugiro um local fresco, porque o calor não diz muito consigo.

Por fim, gostaria de rematar dizendo que se a proteção e segurança do país está entregue a si, eu não me sinto seguro, protegido ou em paz. Não me leve a mal, a culpa não é só sua. Nunca é tarde para fazer o que tem que ser feito. Aproveite essa boa decisão e vá de férias. Os portugueses agradecem.

imagens: notíciasaominuto.com

Onze incidentes depois (uma reflexão sobre o uso dos drones…)

Viajar de avião é para mim sempre objeto de alguma ansiedade, seja pela descolagem, pela possível turbulência ou pelo inquieto processo de aterragem. Talvez seja a minha natureza a dizer-me que o homem não nasceu para voar, não sei. O que sei é que me deixa desconfortavelmente alerta. E se, durante esse processo de aterragem, eu olhasse pela janela e visse um drone, vertiginosamente perto de um dos motores do avião? Seria apenas o desconforto a invadir-me? Seria o pânico, a revolta? E se…

“E se…e se…” é o que penso sempre quando diariamente me confronto com a notícia: “Novo incidente com drone. Avião cruza-se com drone a 500 metros de altitude.” Felizmente, ainda não é uma notícia que abre os telejornais, ainda. Porque não passou disso mesmo, de um incidente e não de um acidente. Mas, como próprio português indica há uma ténue linha entre incidente e acidente.

Dizem os órgãos de comunicação social que são já onze ocorrências no nosso país, sendo que este mês já lá vão sete. A notícia, essa, é sempre a mesma, e segue mais ou menos estes pontos:

  1. Drone cruza-se com avião em trajetória descendente; 2. Piloto faz manobra de recurso; 3. Piloto queixa-se. 4. Companhia aérea reclama. 5. Autoridades e Governo dizem que vão investigar e que é preciso fazer algo. 6. Autoridade Nacional de Aviação Civil (ANAC) diz que houve uma violação do regulamento que proíbe drones de atingirem altitudes superiores a 120 metros (e finalmente avança com queixa-crime). 7. Associações e utilizadores de drones defendem fiscalização, sensibilização e registo de proprietários.

Nas redes sociais surge a indignação ou as teorias de que estas notícias são “plantadas” e que servem os interesses de alguns, quiçá aqueles que defendem a construção de um novo aeroporto em Lisboa.

“A melhor parte” é que conseguimos a proeza de comentar este fenómeno, como se estivéssemos a discutir um penálti ou um fora-de-jogo, em formato de debate futebolístico de segunda-feira:

– “Oh, o piloto vai lá conseguir ver um drone tão pequeno! Não vê um pássaro vai conseguir desviar-se dum drone!”

-”Claro que consegue, achas que iam brincar com isso. Já várias companhias se queixaram. Os pilotos falaram em ON. Aliás, eles queixam-se das aves em bando e tudo!”

– “Isto é mas é um perseguição à malta dos drones. Iam lá agora colocar pessoas em perigo de vida? Aliás, o software que eles usam impede o uso em algumas zonas. Os jornalistas é que não estão a fazer o trabalho deles. Estas notícias devem beneficiar alguém, só pode”.

– “Claro que iam. No Porto, não são drones, mas usam apontadores com laser. A Ryan Air já se queixou. É mais provinciano. Cambada de energúmenos”.

Conclusões? Factos? Investigação? Como dizia o outro “ninguém explica”.

Fico tremendamente contente por, ao décimo primeiro incidente, alguém se começar a questionar. Se investigássemos ao primeiro seria esquisito, seria alarmismo, ou até uma manobra política qualquer. Mas, fico ainda mais feliz, por me aperceber que a regulamentação é recente…só que já está desatualizada ou não está adaptada à realidade (o que na prática vale o mesmo).

Quanto às coimas, estas variam (segundo a SIC) entre 250 e 250 mil euros. Apenas, ninguém foi multado.

Confesso que deve ter o seu quê de hilariante aplicar uma coima de 250 mil euros, sem se saber efetivamente quem cometeu o delito e quem é o proprietário. Aparentemente, não há obrigatoriedade de registo, logo qualquer pessoa pode ter um. A “sorte” é que os terroristas “nunca na vida” vão comprar um drone. Hummm..e se for um adolescente a controlar a aeronave? Uma criança? Consigo também imaginar o diálogo:

“Oh filho, hoje quase mataste 200 pessoas, mas pronto, vai lá dormir. Amanhã não brincas com drone”.

 

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Nariz de Boeing 737 da LAM após colisão com um drone, em Tete. (Fonte: mirror.co.uk)

Mas, há mais. Há algo que me incomoda ainda mais, que é a utilização próprio drone. Excetuando o seu uso em atividades de âmbito profissional (como filmagens com fins publicitários, ou de entretenimento, ou até de justificada vigilância por parte das autoridades), alguém consegue nomear algum tipo de atividade não-profissional do uso de um drone que possa ter uma finalidade minimamente positiva? É que eu não. E se me respondem, com simples atividade de recreação, eu acrescento que existem muitas formas de se entreterem que interferem menos com a vida dos outros. Assim de repente, apetece-me dizer para irem brincar com os berlindes (pronto, pronto, ou com os óculos de realidade virtual).

Como as notícias comprovam, um drone não é um brinquedo e a quantidade de crimes que se podem cometer no uso de um é grande e é vasta.

Eu compreendo que a tentação seja grande, mas é precisamente por esta ser muito grande que deviam existir restrições, pesadas restrições, fiscalização, registos.

Até esse dia chegar e sempre que for possível, vou continuar a preferir ter os pés no chão enquanto viajo. E, claro, manter a janela fechada e ter cortinas em casa (à boa moda portuguesa).

 

Featured Image:

https://media.licdn.com/

Foto 1: The Aviation Herald

 

Carta ao Cristiano

Caro Cristiano Ronaldo, confesso que é estranho poder estar dirigir-me, em forma de carta, a um aeroporto e a uma pessoa ao mesmo tempo. Desculpa-me, para mim é estranho (é a primeira vez que me acontece, talvez se entranhe, não sei..) E sim, Cristiano, é mesmo para ti, o ser humano, a pessoa, o futebolista, o ícone das massas, o melhor do mundo, o goleador, o campeão da Europa, o Comendador a quem me dirijo.
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Ainda não escrevo para aeroportos, nem tão pouco para bustos ou estátuas…ainda. E também não te vou chamar de CR7 ou CR(NÚMEROQUEQUISERES) que mais me parece a designação de um carro da Honda, ou de um qualquer outro construtor japonês. Cristiano, como futebolista, para mim és muito mais parecido com GT musculado do que com um CRX, CRV, um FR ou até um M3SSI. Quanto a isso estamos conversados, (graças a Deus, és português). Não resisto, porém, em confessar-te que seria giro o headline “CR7 buys CRV”. Se eu fosse a Honda, enfim, contratava-te. Não me leves a mal, já estou a divagar, mas sou teu fã. Que fique claro.

Escrevo-te porque admiro a tua coragem, persistência e essa tua propensão para dar o corpo às balas. Tu e só tu és tão ubíquo..mais do que tu, só o presidente Marcelo. Mas, chega de rodeios, vamos ao que interessa.

Tu, Cristiano, aceitaste que o teu nome fosse usado para aquilo que os portugueses fazem pior: dar nomes a aeroportos.

Para nós portugueses, os nomes dos aeroportos são como os filmes de terror: há sempre uma sequela. O Sá Carneiro não teve essa sorte: a de poder dizer que não. Se ele nos estiver a ler, aproveito para dizer que espero que tenha conseguido superar a urticária (ou a comichão como a tua caspa, lembras-te? Ou já não usas Linic? Se usasses estavas como eu, por isso não deves usar). Dar o nome a um aeroporto de uma pessoa que morreu num desastre aéreo seria de génio…só que não é, é só apenas mau e mórbido. No teu caso, perdeste a oportunidade de seres maior do que tu próprio. Ser imortal no gesto e na grandiosidade. (Quem é o teu assessor?!) Lamento dizer-te, com isto a tua ilha ficou mais pequena. Para o mundo, aquele pedaço de terra em mar plantado, é cada vez mais a Madeira do Ronaldo. E não o Ronaldo da Madeira. (Quem concorda, diga pois). É pena.

Sabes, eu adoro futebol, adoro ver os teus golos e a personalidade afirmativa e insaciável que tens em campo, e por isso te digo que para mim, para mim grandioso era ler que deste a oportunidade a outro que merece mais.

A notícia diria: “Cristiano Ronaldo escolhe o nome de João Gonçalves Zarco para o aeroporto do Funchal”. Estou certo que o Tristão e o Bartolomeu também não se importariam de partilhar essa honra. Era uma honra, era uma homenagem e era simbólico.Era um golo daqueles, uma visão de um passado que queremos vivo do qual serias porta-voz .

Mas, não. Eu compreendo, “é marketing” (detesto esta expressão, porque só diz isto quem não sabe o que é marketing). Não, não é marketing. É outra coisa. É falhar um golo à boca da baliza. É ver a oportunidade passar ao lado. Lá no fundo, sempre me pareceu que querias recusar ou fugir a veres o teu nome dado a um aeroporto. Eu sei que é difícil para um português dizer que não e que de “nim, em nim” vamos empatando. Cristiano o que te caracteriza é não seres de empates e também já não precisas fazer fretes. (Eu só gostava de saber é de quem foi a ideia),

Como isto não era suficiente, constatamos que Madeira não é um bom sítio para bustos e estátuas.

Cristiano, digo-o a gritar, sim (!), com exaltação “O QUE É AQUILO, PÁ?”.

Dou-te a liberdade para acrescentares o vernáculo que quiseres ao meu texto, porque todas as palavras más que conheço se aplicam àquele busto, que é somente agora o busto mais conhecido do mundo, pelos piores motivos, sem qualquer valor artístico. Se o nome do aeroporto Sá Carneiro é o Freddy Krueger, o pesadelo em Elm Street, dos nomes, a tua estátua e o teu busto, são seguramente o Jason e o Sexta-feira 13. Quando pensamos que o pesadelo terminou e que é impossível ir mais fundo, descobrimos que afinal não. Se o Jason, o vilão da máscara de hóquei, é de uma “longevidade impressionante” (como li algures), o que dizer das tuas estátuas! (Ninguém deita aquilo abaixo?) Nem um Edvard Munch teria coragem de fazer o seu “grito” tão assustador como aquele busto. Cristiano, e que tal dizer que não? Eu pagava, eu PAGAVA para aquilo não existir.

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Quem é que escolhe aqueles escultores? Diz-me! Como diria a minha mãe “Deus venha cá em baixo ver isto”.

No início, confesso, tem piada, mas depois é só bacoco e trabalho de índole duvidosa. Pior, a malta vai querer tirar selfies àquilo. Não te chegou a estátua? Em que nem sequer pareces ser tu? E porque raio (sim, isto enerva-me) na estátua estás com os ombros para a frente a olhar para baixo (em pose de derrota), e braços em baixo, quando na verdade festejas o golo com uma linguagem corporal aberta de vencedor? Vês onde isto chegou? Para falar de comunicação, uso a tua estátua como mau exemplo! Não devia ser o oposto?

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Cristiano quem é que  te aconselha? Podes dizer-me?

Por fim, queria terminar dizendo-te que até aceito o teu argumento de que preferes que as homenagens sejam feitas em vida. Mas, sabias que o Arnold Schwarzenegger já teve (reforço o teve) um estádio com o seu nome? Não te parece assim demasiado cedo? Pior que não ter nome, é deixar de ter. Já pensaste nisso? Ainda tens tanto para viver, tanto para vencer, tanto para errar… Não te faz confusão esta pressa? A mim faz. E não é por ti.  Simplesmente parece assim…vazio de sentido, tal como o museu, que tem nome de museu, mas que é uma sala de troféus. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa, independentemente do nome que lhe dermos.

Assim, porque a conversa já vai longa, me despeço, sem me esquecer de que sempre celebraste em português, ao contrário de outros. Isso sim, ninguém te pode tirar, isso sim, tal como a tua determinação, é de valor. Não és só madeirense, és português, com ou sem aeroportos, com ou sem golos. E tens orgulho nisso. Isso sim basta-me.

 

imagem 1: http://i2.mirror.co.uk/incoming/article10121353.ece/ALTERNATES/s615b/Ceremony-at-Madeira-Airport-to-rename-it-Cristiano-Ronaldo-Airport.jpg

imagem 2 https://timedotcom.files.wordpress.com/2017/03/cristiano-ronaldo-portugal-airport-statue.jpg?w=1100&quality=85

imagem 3 http://www.thefashionisto.com/wp-content/uploads/2014/12/Cristiano-Ronaldo-Statue-002-800×963.jpg

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Sorte ou azar?

Bastou um segundo um ligeiro toque no canto traseiro-esquerdo do meu carro. Primeiro, a incapacidade de perceber o que estava a acontecer tal a chuva e o mau tempo…o toque foi agora mais intenso, a traseira vira e eis que começo a deslizar, na plena consciência da falta de controlo. O aceitar da incerteza do que vem a seguir, “estou entregue à sorte”. Nesse momento consigo ter a visão do interior do carro e também uma visão aérea do que está acontecer (será que saímos fora do corpo ou é tudo apenas fruto da ilusão?). Tudo devagar, em câmara lenta. Parecia um bailado, uma serenata à chuva no amplo espaço de quatro (faixas de rodagem) sem ninguém à vista. Mas, só foi preciso um segundo, um segundo para perceber o “dedo” que me lançou nessa dança.

Olho pelo vidro do meu lado esquerdo e só vejo vermelho (e era de noite)…não era um pássaro, nem um avião, nem o super-homem, era mesmo um camião. 3, 2,1…

A visão assustadora de um camião a vir em direção à minha porta foi aliviada pelas leis da física, que dirão que dois corpos sólidos ou forças terão uma velocidade de colisão inferior, quando se projetam na mesma direção. Parece tudo tão simples e leve, quando enunciado teoricamente. O ser arrastado durante uns bons 20 ou 30 metros…essa parte já não é assim tão agradável.Talvez se assemelhe ao desconforto das curvas e contra-curvas do comboio-fantasma.Sim, porque ainda faltava ver e isso também a assusta. A visão era a da estranha coincidência de ter o carro do lado do condutor todo amassado e não ter sequer um vidro partido, e eu nem um arranhão. Nada.

O que me fez escrever isto e partilhar é o contraste e o conflito de emoções que estas situações geram. A primeira versão é a do azar. Estar no sítio errado, à hora errada e ter o azar de ter um camião a querer mudar de faixa que não mediu bem a distância para o seu lado direito. Ou pensar em tudo o que podia ter feito diferente nesse dia e não fiz. Pouco produtivo esse exercício. Além disso, vamos ser sinceros, todos nós aqui e ali passamos por isso e eu não sinto que tenha grande direito de me queixar.

Com o passar das horas, e depois de ver a cena repetidamente e repetidamente na minha mente, para tentar perceber todo o sucedido, abate-se a emoção da sorte, do divino, do milagre, da conjugação dos fatores que nos fazem sair “ilesos” de situações que podia ter sido muito piores. Não estou a dramatizar, apenas a dizer que a emoção tem um peso e esse peso desce pelo corpo à medida que as horas passam e que é importante saber canalizar isso.

Mais do que azar, prefiro ver a sorte e a importância de encaixar a experiência, de não dormir sobre ela e simplesmente esquecer. A vida tem mais sentido se atribuirmos significado que vivemos. E por isso, hoje apetece-me dizer que apesar do azar, tive imensa sorte.

Do Zeinal já ninguém se lembra…

Podemos parar? Desculpem podemos parar para pensar? Um dia que seja? Apenas um dia? Só um? Andamos nisto há meses, com a constante promessa de continuar. Andamos nisto há praticamente um ano (ou mais)…e continuamos a alimentar o monstro. Sim, isso mesmo. Nós. Quanto mais atenção lhe damos, mais o legitimamos e mais força damos àqueles que o apoiam. “Falem bem ou mal, mas falem de mim…” Podemos ser, pelo menos um dia, mais portugueses e menos americanos? Ou pelo menos mais do mundo?

Ele não é da minha família, mas vejo-o mais vezes que qualquer um dos meus irmãos.

Eu não jogo futebol com ele, mas sei o que ele diz no balneário sobre as mulheres. Eu não sei quais os meus amigos que abrem a porta do carro à namorada ou namorado, nem sequer se lhes puxam a cadeira para sentarem ou se lhe abrem a porta. Mas, dele eu sei. (Também não era preciso muito para saber, mas na verdade nem me interessa. Não quero saber.) Eu não faço ideia quantas pessoas estiveram no concerto da minha banda preferida, nem na cerimónia do Marcelo, nem tão pouco quantos goeses receberam em êxtase o António Costa. Mas, na cerimónia de tomada de posso dele, eu sei.Será que preciso de saber? Não, porque há coisas que não precisam serem ditas ou mostradas, para terem relevância ou se saberem.

Eu não sei quem são os concorrentes da Casa dos Segredos, tal como não quero saber quais os segredos que ele guarda no seu dourado armário.

Eu não sei quem são a maioria dos assessores dos políticos portugueses, mas os dele eu sei e até sei que um dos assessores se enganou nos números..e na verdade, também sei que vi o Zeinal dizer que não se lembra. Infelizmente, sei que quase já ninguém se lembra.

Eu não sei quem votou nele, eu não sei quem votou no Brexit, eu não sei quem é que dá suporte ao Erdogan, nem tão pouco quem defende Putin. (Por falar nisso, nem sequer faço ideia se o Vladimir Putin é casado ou se tem filhos. Sei que praticou judo e pouco mais – e nem sequer me sinto tentado em ir ver ao google). Mas, sei que o meu mundo, não pode ter sido. O meu mundo, nunca faria aquilo.

Mas, se calhar também o meu mundo não faria uma marcha de mulheres, porque o meu mundo não tem género – Somos Humanos e marchávamos todos juntos.

E se existe a necessidade das mulheres fazerem uma marcha, é porque o mundo dele prevalece sobre o meu mundo. Desse modo, é também o mundo dele que faz com que eu saiba muitas outras coisas sem importância e que faz com que eu esqueça muitas outras importantes. É o mundo dele que se expõe na sombra. Não o vemos, mas está lá.

Eu sei, sem dúvida, que o mais perigoso inimigo é aquele que não se vê. Hoje esse inimigo tem uma face mais visível, mas mais perigosos são os líderes que na sombra e na frieza gerem e controlam a impulsividade e que esperam, esperam… Desses as páginas do Facebook e do Twitter pouco falam e são apenas lembrados e investigados, acima de tudo, por aqueles que são obstinados a procurar a verdade.

 

E por isso, hoje não digo o nome dele e não o vou escrever. Não porque o esqueci, mas porque sei que dar-lhe valor é alimentar os fait-divers. Assim, eu reforço, podemos parar? Podemos ser mais portugueses? Podemos deixar a César o que é de César e o nosso ao que é realmente nosso?

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O dia em que levantei dinheiro num icebergue

Já levantaram dinheiro numa câmara frigorífica? E num icebergue? Não? Imaginem o seguinte cenário: passam alguns minutos das 22h00 e acabaram de chegar ao Porto (ou a outro sítio qualquer) para tomar um café, ou quem sabe beber uma cerveja e reparam que precisam de levantar dinheiro. Até esse instante, em que apontam o cartão multibanco para abrir o espaço interior do banco, que é reservado às caixas multibanco, nada de mais acontece, aliás a temperatura está boa, recomenda-se, ainda é Verão.

Luz verde, a porta abre-se, e num segundo viajei de Portugal ao pólo Norte, fiquei mais gelado do que em 2004 quando a Grécia marcou o golo a Portugal. Com um casaco a servir de cachecol, em que o ar condicionado se transformou no abominável homem das neves, apressei-me a digitar o código antes que as articulações estalassem, ou que aparecessem os figurantes da Branca de Neve no Gelo. Resumindo, e respondendo à minha pergunta, eu já levantei dinheiro numa câmara frigorífica, como também já o terei feito numa verdadeira sauna finlandesa. iceberg-1381594.jpg

Como tenho a noção de que não foi a minha primeira vez, nem tão pouco a vossa, pondero sobre os motivos e o cenário é tudo menos bom. A situação menos grave é, a meu ver, o esquecimento: pode acontecer a todos e umas vezes não são vezes, porém não gostaria de ser eu a pagar o excesso na conta da luz do banco. Se não estava no máximo, estava quase e a noite ainda era uma criança. Seja como for, o cliente não gosta , o ambiente também não (quem paga a conta nunca irá saber, a não ser que leia este texto).

Mais grave é se a situação é intencional, por exemplo, para evitar que pessoas sem-abrigo se refugiem ou abriguem nesse espaço. Mesmo admitindo que possa não ser esta a intenção, o simples facto de me ter ocorrido criou em mim um tremendo desconforto e um claro sinal de que algo muito errado se está a passar. Se for o caso e o motivo ser o que mencionei, então trata-se de algo muito grave e desumano.

Quando usamos o ar condicionado da mesma forma que usamos repelente para insetos…(deixo ao vosso critério terminar este pensamento).

Seguramente que existem outras formas de contribuir para o evitar desta situação sem lesar o ambiente, a sociedade e o cliente. Quantas refeições seriam possíveis de oferecer, considerando apenas o valor do ar condicionado ligado durante toda a noite? Quanto custa isso? Já fizeram as contas? Quanto deste dinheiro gasto é que poderia ser dado a iniciativas de proteção ambiental ou até mesmo aos bombeiros?

Os bancos, tal como todos nós, têm o direito de zelar pela sua propriedade privada, como também têm o dever de zelar pela segurança do cliente, porém, se nenhuma destas situações for possível, desliguem as máquina e desativem o espaço à noite. É simples. Não façamos deste comportamento um padrão. Acrescento que minutos antes tentei efetuar o levantamento num espaço semelhante na Caixa Geral de Depósitos (mesmo ao lado) e a temperatura era a ambiente.

Diz-se  que uma imagem vale mais do mil palavras, pois uma experiência vale muito mais que mil imagens.

Importa sim perceber que olhar para os problemas sociais de forma isolada, procurando apenas evitá-los, é perder uma oportunidade para mudar, começando pelas pequenas coisas. É assim que se cria uma reputação, dia a dia, gesto a gesto, e é também nos pormenores que começamos a perdê-la, basta apenas uma má experiência.

PS – não tenho nada contra o uso do ar condicionado de forma apropriada, é apenas uma coincidência ter falado sobre isso no post anterior.

 

imagem: freeimages.com

 

A prova olímpica da fila de espera do hospital e os brilhantes resultados

Jogos Olímpicos? Medalhas? Nada que se compare ao esforço hercúleo de um jovem de quase 83 anos, com mobilidade reduzida e de poucas falas, na longa espera numa cadeira de rodas para uma consulta de otorrino do Centro Hospitalar S. João. Vá lá que até não está muito calor, não há algas a atrapalhar e as paredes estão pintadas de azul. Falo do meu pai, é claro, que fui acompanhar a uma consulta (a par da minha mãe) de otorrinolaringologia. Curiosamente, a pessoa que se portou melhor foi ele. Quase duas horas impávido e sereno à espera de uma consulta que deveria ter o seu início às 11h20 (sendo que o cliente deve apresentar-se com meia hora de antecedência) e a consulta teve lugar muito perto das 13h00. Querem saber os resultados? Brilhantes. É seguro trouxe uma medalha. No final dir-vos-ei qual.

Na completa certeza de existirem problemas bem mais graves no nosso querido Serviço Nacional de Saúde, admito que há “pequenos” pormenores que fazem alguma espécie e dos quais me apetece falar sobre e dos quais farei um breve retrato cronológico.

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A marcação da consulta

Comecemos pela marcação da consulta: a consulta teve lugar na passada semana, mas deveria ter sido realizada anteriormente. Acontece que o Salgado sénior ainda não tem o dom da ubiquidade e não consegue estar na consulta de neurologia e de otorrinolaringologia praticamente ao mesmo tempo. Duas cartas, duas consultas, o mesmo dia. Começou bem. A segunda foi adiada. Parece-me que isto é algo que os sistemas informáticos poderiam facilmente prever.

A segunda carta chegou com a marcação da data e hora e o aviso para chegar 30 minutos mais cedo. Rápido, direto. Quase parece profissional e organizado, nada parecido com os relatos anteriores de longa espera no mesmo serviço.

A entrada no parque

Chegados ao hospital, comunico na portaria que pretendo entrar porque tenho comigo um paciente com mobilidade reduzida e a resposta foi a evidente “pode entrar, mas não pode estacionar, tem que por o carro lá fora”. Ainda bem que fui acompanhado, senão, desculpem o termo “despejava a encomenda” (que é assim que a pessoa se sente) e deixava lá, até conseguir voltar. Entre voltas e voltas, lá estacionei a viatura a uns 5 a 10 minutos a pé, com duas horas para o parquímetro. Tive alguma sorte por serem as férias escolares das universidades, senão nunca encontraria um lugar próximo – a entrada é quase em frente à Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto. Se eu sofri com isto, seguramente outras pessoas sofrem muito mais. Reforço que à porta do serviço de Otorrinolaringologia tinha seguramente uns bons 10 lugares livres.

A entrada no serviço

Quando transportamos alguém numa cadeira de rodas (nem consigo imaginar para quem as usa) o mundo muda um pouco de figura. Reparámos nos passeios, nas portas, nos degraus, em todo e qualquer obstáculo. Seria de assumir que a entrada no serviço de um hospital estivesse preparada para o efeito. Pois, é isso mesmo, não está. Se subir um ou dois passeios, nem foi demasiado difícil, o facto da cadeira de rodas nem sequer passar na porta teve o seu momento caricato: bato uma vez contra a porta, bato duas, olho lá para dentro e nada acontece. A funcionária da receção do serviço, em vez de ajudar ou manifestar-se de alguma forma, fez de conta que não era nada com ela, até que lhe pedimos autorização para abrir a outra portada. Simpático, não acham? Chegámos minutos antes das 11h00. Tirámos a senha e eu desapareci por uns bons 20 minutos à procura de estacionamento.

A sala de espera

Feito o aquecimento, estávamos agora os 3 preparadíssimos para a prova olímpica da espera. Ponto a favor: a cor azul da sala, não estava muita gente e tudo parecia calmo. Demasiado calmo. Qual nau parada no meio de um oceano sem corrente. Morrer à fome não morreríamos, já que a máquina de vending estava estrategicamente colocada à entrada do serviço, acompanhada de alguns snacks saudáveis, cheios de sal e açúcar. Nunca me debrucei muito sobre isto, mas há uma certa ironia na “imensa” variedade de produtos que conseguimos comprar nestes lugares. A televisão seguia sem som, ao ritmo das praias olímpicas e o senhor Salgado continuava assim estático parado à espera. O ar condicionado continuava feroz a arrefecer a sala, ou simplesmente a ventilar a frieza da funcionário da receção.

Aliás, a frieza era tanta que nem me consigo recordar da sua cara. Recordo a voz, mecânica, seca, fria. Estou certo de que um robot cumpriria melhor este serviço, se é para perdermos a humanidade, as emoções e a simpatia, então prefiro máquinas – pelo menos podem ser programadas para nos tratarem bem.

Passado uma hora, a par da minha mãe inicio a típica conversa da incompetência, em tom alto o suficiente para que a funcionária e os outros pacientes a ouçam. Marca consultas tem lógica, se o paciente for atendido a horas, se não vai ser atendido a horas, deve ser avisado, ou por telefone, ou por SMS ou até ao vivo se o cliente já lá estiver. Mais do que um direito, para mim é um dever ser informado do tempo de espera médio. Se o médico não está lá, devemos ser informados. É simples, ficamos preparados e até agradecemos. Sem informação e com indiferença ficamos revoltados. Levantei-me e vi a fantástica caixa de sugestões e reclamações. Está lá a caixa, está lá a informação, mas o formulário não. À medida que alguns pacientes são atendidos, recordo que até nos autocarros e nos metros existem prioridades nas quais encontramos grávidas, idosos, pessoas portadoras de algum tipo de deficiência…mas, neste serviço não. Disso não há.

Entre um encolher de ombros de resignação, o Salgado sénior mantinha-se firme em cumprir o seu desígnio. A sala esvaziou continuamos lá, voltou a encher, voltou a esvaziar. Se fosse um jogo de futebol. o Salgado sénior terminava o jogo com a folha irrepreensível e eu seria o jogador que se arriscava a ir para rua por chamar incompetente ao árbitro por não ter assinalado o merecido penálti. Chegados às 12h45, insisto com a minha mãe para falar com a robótica funcionário, já que o médico em anterior aventura, se havia manifestado surpreendido por terem deixado uma pessoa daquela idade tanto tempo à espera.

Senhor doutor uma palavra para si: QUALQUER PESSOA MERECE SER ATENDIDA A HORAS, MERECE SER AVISADA, SER BEM TRATADA e TER INFORMAÇÂO, ainda que aceite que umas merecem um carinho mais especial. Dignidade.

A minha mãe dirige-se à funcionária insistindo que estávamos à espera há demasiado tempo. Esta responde algo parecido com  um “vou então ver”.  Milagre. Dois minutos depois fomos atendidos. A consulta durou pouco mais de 2 minutos. Viram a corda vocal e disseram que o problema é neurológico, logo nada mais haverá a fazer naquela especialidade.

A medalha

Quanto à merecida medalha, o meu pai enverga-a desde então: tosse, muita expetoração e uma potencial infeção respiratória, provavelmente devido à longa exposição ao frio do ar condicionado numa sala tão pequena ou pelo contacto com algum paciente no hospital.

Como disse anteriormente, há seguramente problemas mais graves no nosso SNS, no entanto, alguns poderiam ser evitados, através melhor comunicação, melhor organização e mais informação – processos simples de implementar e de pessoas que não se importam de ser humanas.