A homenagem ao atleta desconhecido (ou o português que liderou o “Giro”)

Desporto para mim é uma paixão. Talvez tente compensar uma certa frustração por nunca ter verdadeiramente ter tentado (ou tido a coragem) ser um atleta de alta competição, pela forma intensa, curiosa e atenta como vibro com o sucesso dos grandes atletas e equipas. Sou capaz de passar uma tarde a ver futebol, ou horas de um grande jogo de ténis, mas ver e acompanhar ciclismo acontece quando há um feito, uma estória, uma lenda, uma superação. E quando dou por mim a ver o “Giro”, a seguir ao minuto o que está acontecer, é porque se está a fazer história.

No ano mais insólito das nossas vidas, nós portugueses (posso falar pela maioria, não posso?) sentimos uma vontade súbita de vestir de cor de rosa e vibrar com os feitos dos desconhecidos João Almeida (“o comboio de Pegões” – esta alcunha é fabulosa…) e Ruben Guerreiro. Da mesma forma como o fizemos com o Fernando Pimenta,  a Rosa Mota, a Fernanda Ribeiro, o Carlos Lopes, o Nelson Évora, o João Sousa, a Telma Monteiro ou a Seleção Nacional de futebol.

“Um português dias a fio à frente do “Giro”? Mas como?”

Ontem, da distância do meu telemóvel, acompanhei ao minuto a subida ao Stelvio (que até ontem era apenas um nome do modelo da Alfa Romeo – desculpem a ignorância). Assim, para terem uma ideia, é como ir do Porto da Braga, sempre a subir…assim, sem descidas. Sem mais. E à boa notícia do Ruben garantir a camisola azul da montanha, ficou claro que o João Almeida não tinha forças, nem uma equipa que o acompanhasse face a tal Adamastor. Acontece ao melhores, mas não tira um milímetro ao que o jovem ciclista conseguiu até aqui – fazer-nos sonhar.

Hoje, o João é quinto e o mais jovem a ter a camisola rosa durante tantos dias. O Ruben vencerá a camisola da montanha (que feito!). Admiro estes atletas, admiro estes seres humanos que escolhem provavelmente o mais difícil e desumano dos desportos. Não consigo dimensionar a coragem, a perseverança, a determinação que é precisa para enfrentar o sofrimento constante, o inferno das subidas e as vertiginosas descidas.

Sei que me inspira, sei que admiro e sei que estas pessoas têm estórias que merecem ser vistas contadas, valorizadas, apreciadas. E porquê? Porque nos tornam parte, porque nos fazem acreditar nos pequenos “milagres”, no trabalho árduo, na determinação em seguirmos o nosso caminho.

Storytelling é isto.

Obrigado João Almeida e obrigado Ruben e obrigado aos atletas desconhecidos levam Portugal mais longe. Continuem a escrever a vossa história, pois com o vosso exemplo, mostram que podem ajudar a definir novas linhas e novas metas para nós e para Portugal.

Uma nota final:

Nós portugueses não temos uma verdadeira cultura de desporto (de clubite talvez) , não valorizamos o desporto como poderíamos, acredito que não lhe damos a importância devida, e até na academia sinto por vezes uma certo desprezo pela investigação sobre o tema. Como se fosse algo menor. Como pode algo menor despertar tanto interesse, tanta paixão e unir pessoas por um desígnio e ter ao mesmo tempo ter uma imagem tão pobre? Talvez Bourdieu tenha razão.

“falar de desporto é difícil, porque num sentido é muito fácil: todas as pessoas têm as suas ideias sobre o assunto e sentem que conseguem dizer algo inteligente sobre isso” (Bourdieu, 1998, p.15)

Negar o potencial do desporto para nos contar histórias sobre liderar, comunicar, perseverar, gerir equipas, continuar e superar, é fechar os olhos a uma atividade que alia a emoção, a paixão à capacidade de nos ensinar grandes lições.

Imagem: Federação Portuguesa de Futebol – http://www.fpf.pt