Bastou um segundo um ligeiro toque no canto traseiro-esquerdo do meu carro. Primeiro, a incapacidade de perceber o que estava a acontecer tal a chuva e o mau tempo…o toque foi agora mais intenso, a traseira vira e eis que começo a deslizar, na plena consciência da falta de controlo. O aceitar da incerteza do que vem a seguir, “estou entregue à sorte”. Nesse momento consigo ter a visão do interior do carro e também uma visão aérea do que está acontecer (será que saímos fora do corpo ou é tudo apenas fruto da ilusão?). Tudo devagar, em câmara lenta. Parecia um bailado, uma serenata à chuva no amplo espaço de quatro (faixas de rodagem) sem ninguém à vista. Mas, só foi preciso um segundo, um segundo para perceber o “dedo” que me lançou nessa dança.

Olho pelo vidro do meu lado esquerdo e só vejo vermelho (e era de noite)…não era um pássaro, nem um avião, nem o super-homem, era mesmo um camião. 3, 2,1…

A visão assustadora de um camião a vir em direção à minha porta foi aliviada pelas leis da física, que dirão que dois corpos sólidos ou forças terão uma velocidade de colisão inferior, quando se projetam na mesma direção. Parece tudo tão simples e leve, quando enunciado teoricamente. O ser arrastado durante uns bons 20 ou 30 metros…essa parte já não é assim tão agradável.Talvez se assemelhe ao desconforto das curvas e contra-curvas do comboio-fantasma.Sim, porque ainda faltava ver e isso também a assusta. A visão era a da estranha coincidência de ter o carro do lado do condutor todo amassado e não ter sequer um vidro partido, e eu nem um arranhão. Nada.

O que me fez escrever isto e partilhar é o contraste e o conflito de emoções que estas situações geram. A primeira versão é a do azar. Estar no sítio errado, à hora errada e ter o azar de ter um camião a querer mudar de faixa que não mediu bem a distância para o seu lado direito. Ou pensar em tudo o que podia ter feito diferente nesse dia e não fiz. Pouco produtivo esse exercício. Além disso, vamos ser sinceros, todos nós aqui e ali passamos por isso e eu não sinto que tenha grande direito de me queixar.

Com o passar das horas, e depois de ver a cena repetidamente e repetidamente na minha mente, para tentar perceber todo o sucedido, abate-se a emoção da sorte, do divino, do milagre, da conjugação dos fatores que nos fazem sair “ilesos” de situações que podia ter sido muito piores. Não estou a dramatizar, apenas a dizer que a emoção tem um peso e esse peso desce pelo corpo à medida que as horas passam e que é importante saber canalizar isso.

Mais do que azar, prefiro ver a sorte e a importância de encaixar a experiência, de não dormir sobre ela e simplesmente esquecer. A vida tem mais sentido se atribuirmos significado que vivemos. E por isso, hoje apetece-me dizer que apesar do azar, tive imensa sorte.

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