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Do Zeinal já ninguém se lembra…

Podemos parar? Desculpem podemos parar para pensar? Um dia que seja? Apenas um dia? Só um? Andamos nisto há meses, com a constante promessa de continuar. Andamos nisto há praticamente um ano (ou mais)…e continuamos a alimentar o monstro. Sim, isso mesmo. Nós. Quanto mais atenção lhe damos, mais o legitimamos e mais força damos àqueles que o apoiam. “Falem bem ou mal, mas falem de mim…” Podemos ser, pelo menos um dia, mais portugueses e menos americanos? Ou pelo menos mais do mundo?

Ele não é da minha família, mas vejo-o mais vezes que qualquer um dos meus irmãos.

Eu não jogo futebol com ele, mas sei o que ele diz no balneário sobre as mulheres. Eu não sei quais os meus amigos que abrem a porta do carro à namorada ou namorado, nem sequer se lhes puxam a cadeira para sentarem ou se lhe abrem a porta. Mas, dele eu sei. (Também não era preciso muito para saber, mas na verdade nem me interessa. Não quero saber.) Eu não faço ideia quantas pessoas estiveram no concerto da minha banda preferida, nem na cerimónia do Marcelo, nem tão pouco quantos goeses receberam em êxtase o António Costa. Mas, na cerimónia de tomada de posso dele, eu sei.Será que preciso de saber? Não, porque há coisas que não precisam serem ditas ou mostradas, para terem relevância ou se saberem.

Eu não sei quem são os concorrentes da Casa dos Segredos, tal como não quero saber quais os segredos que ele guarda no seu dourado armário.

Eu não sei quem são a maioria dos assessores dos políticos portugueses, mas os dele eu sei e até sei que um dos assessores se enganou nos números..e na verdade, também sei que vi o Zeinal dizer que não se lembra. Infelizmente, sei que quase já ninguém se lembra.

Eu não sei quem votou nele, eu não sei quem votou no Brexit, eu não sei quem é que dá suporte ao Erdogan, nem tão pouco quem defende Putin. (Por falar nisso, nem sequer faço ideia se o Vladimir Putin é casado ou se tem filhos. Sei que praticou judo e pouco mais – e nem sequer me sinto tentado em ir ver ao google). Mas, sei que o meu mundo, não pode ter sido. O meu mundo, nunca faria aquilo.

Mas, se calhar também o meu mundo não faria uma marcha de mulheres, porque o meu mundo não tem género – Somos Humanos e marchávamos todos juntos.

E se existe a necessidade das mulheres fazerem uma marcha, é porque o mundo dele prevalece sobre o meu mundo. Desse modo, é também o mundo dele que faz com que eu saiba muitas outras coisas sem importância e que faz com que eu esqueça muitas outras importantes. É o mundo dele que se expõe na sombra. Não o vemos, mas está lá.

Eu sei, sem dúvida, que o mais perigoso inimigo é aquele que não se vê. Hoje esse inimigo tem uma face mais visível, mas mais perigosos são os líderes que na sombra e na frieza gerem e controlam a impulsividade e que esperam, esperam… Desses as páginas do Facebook e do Twitter pouco falam e são apenas lembrados e investigados, acima de tudo, por aqueles que são obstinados a procurar a verdade.

 

E por isso, hoje não digo o nome dele e não o vou escrever. Não porque o esqueci, mas porque sei que dar-lhe valor é alimentar os fait-divers. Assim, eu reforço, podemos parar? Podemos ser mais portugueses? Podemos deixar a César o que é de César e o nosso ao que é realmente nosso?

imagem: http://www.freeimages.com/photo/stop-button-1471632

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Trump para principiantes

A cada vitória de Donald Trump nas eleições primárias americanas, vejo nas redes sociais um coro de partilhas, posts e comentários de incredulidade e até de alguma revolta. “Como é possível?”, perguntam alguns, entre comentários mais jocosos a um candidato que é autor de algumas das frases mais infelizes que ouvi em três décadas e meia de existência. Não as vou proferir, elas andam por aí e é demasiado fácil encontrá-las. Agora ficar surpreendido com o facto de o multimilionário americano estar à frente nas eleições primárias (do lado republicano), isso não estou, não fico e é fácil explicar porquê.

Talvez a única coisa que me surpreenda em Trump é a sua capacidade para ir mais longe do que aquilo que alguma pensei ser possível nos tempos de hoje

O primeiro ponto (1) que é importante focar é simples: os americanos têm uma cultura muito própria e, no geral, não pensam e não sentem as coisas como nós portugueses e até europeus. Depois, está também na altura de abandonarmos o preconceito de que o advento das redes sociais, que a sociedade da informação, que a sociedade “ocidental”, e que todo o conhecimento à nossa disposição nos torna naturalmente mais evoluídos, mais compreensivos, mais conhecedores, mais inteligentes e mais cultos. No mundo perfeito isso seria verdade, num mundo em que cada dia tivesse no mínimo 72 horas para conseguirmos absorver tudo aquilo que acontece à nossa volta. Como isso não é verdade, estamos cada vez mais sensíveis ao sound byte, aos títulos ou headlines, aos primeiros 30 segundos de um vídeo que tem no mínimo três e que não vamos visualizar até ao fim, e claro, à “verdade” dos opinion makers (ou líderes de opinião) que facilmente nos dizem o que devemos pensar sobre determinado assunto (2). Estes tenderão a ser selecionados por nós de acordo com a cor política, o saber falar, o life style ou o estilo de vida que representam, ou outro motivo qualquer mais ou menos óbvio, como a cor clubística.

O somatório destes dois primeiros pontos faz com que estejamos demasiados sensíveis e expostos a canais de comunicação e a uma partilha de informação, baseada em instantes em impulsos comunicacionais básicos, que levam a uma rápida e explosiva interpretação e, por sua vez, a uma simplificada criação de sentido e significado. Se a este ponto adicionarmos o ingrediente que é uma audiência ávida por um certo tipo de mensagens, estão criadas as condições para que as declarações de Trump proliferem. Lá porque nas redes sociais não vemos ninguém a idolatrar Trump (pelo menos com a mesma frequência com que este é gozado ou odiado), não quer dizer que este não tenha imensos e silenciosos apoiantes. Marcelo Rebelo de Sousa não era propriamente acarinhado nas redes sociais e ganhou facilmente as eleições em Portugal. Voltando a Trump, as suas mensagens são simples, claras, objetivas. Goste-se ou não, são fortes. É fácil de perceber, é incisivo e tem audiência.

Trump

O próximo ponto que vou referir é sobre a marca Trump, isto é, a sua persona, o que esta representa para o seu eleitorado. A este nível o que podemos dizer é que há coerência, Trump representa um arquétipo fácil de identificar – uma espécie de self-made man que se tornou milionário e que pensa apenas e só pela sua cabeça. A narrativa é simples.

Contra tudo e contra todos se tiver que ser, Trump apresenta-se como um individualista com toques de narcisismo que só pensa em vencer, que só pensa numa América vencedora que subjuga os seus inimigos. Ganhar, ganhar, ganhar, seja através do medo, da divisão, das armas ou da guerra. Tanto faz. Mas, ganhar.

Um discurso que o americano de orgulho ferido que sente que a América não é a super potência de há duas décadas aparentemente quer ouvir.O americano que quer ter uma arma em casa para se defender, porque faz parte do seu direito. Um americano desempregado que não quer fluxo migratório para o seu país. A narrativa está aí, é horrível, mas existe e é consistente, pelo menos para um nicho suficientemente grande e capaz de colocar Trump a disputar a presidência americana.

Esta narrativa funciona para a personagem de Trump que encarna o seu personagem, o seu arquétipo como ninguém, tornando fácil perceber a sua marca, tornando muito fácil à sua audiência identificar-se com ele. As constantes partilhas dos seus sound bytes ajudam… e de que maneira.

Por último, e em dia de Super Terça-feira (para quem saber o que é:  http://www.publico.pt/mundo/noticia/o-que-e-a-super-tercafeira-1724788), em poucos dias vamos saber se veremos Trump na corrida à presidência americana, mas está na altura de deixarmos de olhar para ele como um ser inocente ou incoerente. Ele sabe o que quer e como quer. Não acredito que tenha chegado onde chegou baseado apenas no ódio e ideais xenófobos (pelo que li tem importantes negócios no Médio Oriente) e também não acredito que ele acredite em tudo o que diz e que caso seja eleito faço tudo o que disse. Acredito sim que se Trump tiver que mentir mente e que a sua comunicação vai continuar a ser dura, voraz, explosiva e polémica – está na génese do sucesso que tem tido. Porém, espero sinceramente que os americanos optem por outra via.

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