Frases da semana: As “botefadas” do Soares e o “fundo” azul e branco

O caso das “bofetadas” do já confirmado ex-Ministro da Cultura João Soares e o “batemos no fundo” de Jorge Nuno Pinto da Costa, em entrevista ao Porto Canal marcam, em definitivo, o final desta semana. Duas frases que merecem a minha atenção por motivos diferentes.

A situação mais surreal, é sem dúvida, a de João Soares que às 06h12 da manhã decide que Augusto M. Seabra e Vasco Pulido Valente merecem umas “bofetadas” logo a começar o dia. Quer dizer, não é a começar o dia, é quando se c(r)uzarem com ele (e não vou sequer abordar as gralhas e a questão da acentuação). Não sei se João Soares, agora que já não é ministro, vai adotar essa estratégia “obelixiana” de ir de tabefe em tabefe e despachar os mais ácidos cronistas portugueses (achava eu que a PAF tinha acabado).  Ou se por outro lado, vai decidir ameaçar todos os portugueses que ficaram felizes com a sua demissão, se for o caso, então o número deve ascender aos milhões.

Screen Shot 2016-04-08 at 14.40.40
João Soares acordou bem cedo para o Facebook e escreve um post a merecer revisão ortográfica.

Quero frisar que não questiono a sua liberdade de expressão (nem ele deveria questionar a dos cronistas), porém dado o seu cargo político e sua longa experiência nestas lidas, teria sido aconselhável outro tento na língua, para, usando o seu próprio termo, não “bolçar” estes comentários para uma página de Facebook, ou como diria Habermas, para a esfera pública. Já era tempo dos políticos saberem que as redes sociais são para ser usadas com critério: no tom, no rigor, na clareza, na educação e, na gramática, é claro.

“O hábito não faz o monge”, nem o ministério faz o ministro.

Além do mais, às 06h00 da manhã, dificilmente poderíamos considerar João Soares vítima de um repasto ou jantar mais regado. (No meu íntimo pergunto: quem é que genuinamente se lembra de publicar coisas daquelas às 06h12?).

Até para um assessor de comunicação não deve ser fácil acordar tão cedo para evitar tal insanidade. Porém, se eles existem, é também para isto: evitar que a comunicação política e pública se torne leviana, impulsiva, egocêntrica e insana.

O pedido desculpas chegou tarde e a demissão foi “naturalmente” aceite. Soares fez um haraquíri sem honra. O país agradece, creio que António Costa também. 

Passando ao universo azul e branco, Pinto da Costa brindou o universo portista com uma entrevista recheada e embrulhada na palavra caráter. Palavra essa repetida vezes sem conta. De sublinhar a postura incisiva e determinada do presidente dos Dragões – como há muito não se via. A entrevista surge num momento importante, em que a voz de Pinto da Costa era mais do que necessária para amenizar a crise.

Apesar de olhar para a entrevista como uma boa resposta para o cenário de crise que se vive nas Antas, a meu ver há dois aspetos em que a comunicação poderia ter sido mais assertiva: 1) O uso do termo (sound bite) “bater no fundo”. É forte, mas vai fazer (ou melhor fez) manchetes e tirou impacto à palavra “caráter” tão usada ao longo da entrevista. Só o jornal O Jogo optou pela via do caráter. Além disso, o “fundo” é um termo relativo.  Às vezes é possível ainda ir mais fundo do que se imaginava. Não gosto do termo, não gosto da expressão. Gosto do assumir dos erros, da frontalidade, mas não aconselho o uso de uma palavra que vai pulular o universo azul e branco durante semanas e semanas. Há formas igualmente incisivas e eficazes de dizer isso. Não é porque perdeu com o Tondela que o FC Porto bateu no fundo. Já vi derrotas mais embaraçosas. Se está no fundo, já o estaria bem antes desta derrota. Reforço, não usaria essa palavra, mesmo que ela seja dita e repetida vezes sem conta nas redes sociais.

Em tom de conclusão, uma ótima entrevista pode ficar a dever a si própria o uso de uma frase má. “Se o hábito não faz o monge”, uma frase pode muito bem fazer uma entrevista.

 

imagem: ohomeminvisivel.com

 

 

SL Benfica vs FC Porto: o futebol já não é momento (uma visão estratégica)

Em dia de “clássico” nada melhor que fazer uma breve análise e comparação à estratégia de SL Benfica e FC Porto, ao longo da temporada 2015/16 e de alguns temas que considero importantes para a vida dos clubes. Independentemente do resultado que possa acontecer esta noite, para mim o futebol de hoje não é momento. Esta expressão muito utilizada poderá revelar aquilo que acontece no terreno de jogo, mas não descreve minimamente a importância de tudo aquilo que interfere e tem influência nosucesso de um clube e de uma equipa. Como diz o título do livro de Ferran Soriano (hoje CEO do Manchester City), a bola não entra por acaso.

FC Porto vs Benfica Lisbon
Marcano (que estará ausente e Samaris)

Para tornar este exercício de opinião mais interessante irei atribuir pontos, às componentes em análise. (0 a 10)

A estratégia

SL Benfica 7 – o SL Benfica optou, esta temporada, por uma reorientação da sua estratégia, ao nível da sua equipa de futebol. Pelos media, circulou a ideia de que esta estratégia resulta da necessidade de criar uma sustentabilidade económica no clube. À parte disso, o que importa referir é que o SL Benfica “deixou cair” Jorge Jesus (num processo que abordarei mais à frente), e optou por Rui Vitória, treinador com provas dadas em todos os clubes por onde passou e com conhecimento de causa da formação dos encarnados (foi treinador dos juniores). A estratégia passa, então, por segurar alguns dos jogadores mais experientes e lançar jovens da formação do clube. O clube mantém-se também atento ao mercado do leste Europeu, nomeadamente a sérvia. A estratégia depois de um início titubeante, parece estar a dar frutos, com o surpreendente Renato Sanches a ser a bandeira deste novo projeto.

FC Porto 4 – para enfrentar esta temporada, o FC Porto optou por manter Julen Lopetegui, que nada ganhou na época transata e procurou substituir as enormes baixas no seu plantel por nomes reconhecidos no mercado como: Iker Casillas, Maxi Pereira, Pablo Osvaldo, ou o caríssimo Giannelli Imbula. Foram também contratados alguns valores nacionais a despontar: André André (um regresso) e Danilo Pereira. Ao contrário da estratégia que durante anos deu frutos nos Dragões, a aposta em jovens valores do mercado sul-americano foi substituída pela contratação de jogadores mais velhos e mais experientes, que auferem salários altíssimos. Fica a ideia de um FC Porto mais internacional, com mais nome, mais caro. Os media foram claros em nomear o FC Porto favorito, numa estratégia considerada de “curto prazo”. A aposta tem dado mau resultado. Lopetegui já saiu, Osvaldo já partiu, Cissokho mal entrou, a promessa Imbula não se afirmou e os cofres do clube irão sofrer com isso. A chegada de José Peseiro e demora na substituição Lopetegui denunciam hesitação. A estratégia voltará a mudar. É quase certo.

O mercado e as contratações

SL Benfica 3:  Taarabt. Um nome caríssimo que só deixará lembranças pelo seu peso, incursões noturnas e um penálti (surreal) não marcado pela equipa B. Este foi o maior falhanço do SL Benfica. Jiménez, o reforço mais caro de sempre do clube, pareceu mais uma manobra para gerir impressões do que uma solução. Mitroglou tem demonstrado a sua utilidade. Carcela e Bilal não se afirmaram. A chegada de Grimaldo, vindo de Barcelona, carece de tempo para análise. A saída de Lima deixou marcas no início de época, tal como a saída de Jesus para o Sporting. Rui Vitória parece agora o “homem para o lugar”. Não foi pela sua intervenção no mercado que o SL Benfica está a lutar pelo título. O “golpe” Carrilo é uma boa resposta ao Sporting pela partida de Jesus. A continuidade de Gaitán vejo-a como essencial.

FC Porto 5: Danilo Pereira, Maxi Pereira, Layún, Corona e em especial André André têm sido interessantes soluções para os azuis e brancos. No entanto, não posso deixar de lado, como já referi, os nomes de Imbula, Osvaldo e Cissokho. Casillas, que criou uma onda de excitação no Dragão, oscila entre o bom e o mau. Não traz segurança e já custou pontos aos Dragões, ao mesmo tempo que evitou um embaraço frente ao Tondela. Em janeiro chegaram Suk, Marega e José Sá. A política de contratações dos Dragões é irregular, inconstante e parece revelar pouco peso da estrutura de scouting na tomada de decisões. A influência dos fundos de investimento pode explicar o facto. A ausência de jogadores experientes sintonizados com a identidade do clube é de estranhar. Como exemplo, sublinho a importância do regresso de Lucho González para um dos títulos de Vítor Pereira. Esta época, relembra-me o ano de 2005. Importa aqui salientar, o reconhecer do erro nas contratações de Verão e o valor obtido na venda de Imbula. As coisas voltarão a ser o que eram.

A pré-temporada

SL Benfica 3 : O SL Benfica fez uma péssima pré-temporada. A ida aos Estados Unidos e México, a transferência de Jesus para o Sporting e a subsequente má gestão da comunicação do processo (Luís Filipe Vieira demorou a responder), aliada aos fracos resultados na pré-temporada e início de campeonato deixaram o clube quase arredado do título e Rui Vitória em maus lençóis. O SL Benfica está a beneficiar da quebra dos rivais, senão nem 11 vitórias consecutivas trariam outro ânimo.

FC Porto 7: A pré-temporada foi excitante para os Dragões. Resultados interessantes, racionalidade no cancelamento da digressão americana e a chegada de Casillas criaram condições para um balão de oxigénio para Lopetegui, que só foi apagado pelo futebol sem sabor e pela derrota caseira com o Kiev. Questão? Lopetegui devia ter começado a época? Não. No entanto, na pré-época, a serenidade foi tal, que a questão mais premente era a cor castanha do equipamento alternativo: demasiado chocolate, de facto.

Marca, imagem e  reputação

SL Benfica 7 : Apesar do episódio dos vouchers e camisolas oferecidas aos árbitros, em resultado da queixa do Sporting, que mancha de certo modo a imagem do clube, a gestão da imagem pelo clube foi relativamente bem feita. Apesar de discordar da relevância dada ao seu responsável de comunicação, em guerra pública com Bruno de Carvalho, O SL Benfica é o clube que parece estar a gerir melhor os relacionamentos com públicos-alvo chave:  boa relação com a Federação Portuguesa de Futebol e com Vítor Pereira, presidente do Conselho de Arbitragem (que pareceu estar do lado dos encarnados no caso dos vouchers). Além do mais, o SL Benfica é o clube em Portugal, também pela sua dimensão e localização, que tira melhor partido da sua relação com a imprensa – recordo os recentes títulos da imprensa desportiva que diziam algo como “BENFICA É LÍDER” (ou já é líder, mesmo que empatado com o Sporting). A BTV sofrerá alterações na próxima temporada, fruto do milionário acordo com a NOS, no entanto a existência do canal foi uma importante arma negocial. O processo de venda dos direitos de transmissão televisiva dos seus jogos foi bem preparado, tal como o patrocínio do Emirates que oferece credibilidade e valoriza a marca. O processo a Jorge Jesus parece claramente exagerado.

FC Porto: 7: O FC Porto continua a ter uma grande exposição da sua marca a nível internacional. O clbe parece ter uma capacidade única para tirar partido dos relacionamentos com fundos de investimento e ser reconhecido como um ótimo clube para se comprar com qualidade. Os Dragões revelam ter capacidade para atrair nomes interessantes e fortes no mercado. A exposição da sua marca no México e na Colômbia, aliada ao projeto Dragon Force, dão visibilidade aos azuis e brancos fora de portas. Porém, a nível da gestão da sua imagem de curto prazo, as constantes hesitações na gestão da saída de Lopetegui, o silêncio a que se remeteu no caso “Conceição”, a pouca influência revelada na gestão da imagem de Lopetegui e na forma como este comunicava (sozinho e em mau tom), revelam algumas incongruências. Acrescento, a “vitória” azul e branca na eleição de Proença, e a guerra mais “velada” (em comparação com o Sporting) ao Conselho de Arbitragem de Vítor Pereira. De salientar, a dificuldade do clube em encontrar um patrocinador para as suas camisolas, que foi bem resolvida com a venda dos direitos de transmissão televisiva à MEO. O trabalho meritório feito ao nível do Porto Canal é de valorizar.

A estrutura

SL Benfica 8: A estrutura vs. Jorge Jesus. Foi este um dos temas da temporada. O SL Benfica tem já uma estrutura sólida e consolidada, ao longo da presidência de Luís Filipe Vieira. A reorientação estratégica parece estar a envolver todas as áreas do clube. O que se pode dizer é que há coerência. O aspeto mais negativo está relacionado com as contratações de alguns jogadores e gestão do caso Jesus.

 FC Porto 6,5: o FC Porto continua a ter uma das melhores estrutura profissionais em Portugal, ao qual estão ligados títulos nacionais e internacionais. A qualidade é inegável. Apesar disso, durante algumas fases da época pareceu existir uma falta de alinhamento estratégico entre as várias áreas do clube, em especial a relação entre a equipa técnica de Lopetegui (sobrevalorizada) e a restante estrutura do clube, cuja voz terá sido porventura negligenciada.

O treinador

SL Benfica 7,5: Luís Filipe Vieira escolheu Rui Vitória para o futuro que ele considera ser o melhor para o SL Benfica. Apesar do atribulado início, a confiança foi-lhe dada e este, depois de problemas claros em comunicar e em enfrentar os ataques de Jorge Jesus, parece ter conseguido a confiança dos adeptos, já que a confiança do presidente sempre a terá tido. Tem o perfil para a função que se lhe pede. Deve continuar no SL Benfica, a não ser que haja uma calamidade de resultados no clube. A passagem à fase seguinte na UEFA Champions League com uma vitória sobre o Atlético de Madrid foi extremamente importante.

FC Porto 3: Lopetegui não devia ter começado a época. Não se adaptou e a sua ideia de futebol deixa a desejar. Os tempos mudaram e o FC Porto precisa de um mentor para o seu futuro, talvez fosse isso que Pinto da Costa augurasse na continuidade de Lopetegui, mas falhou. A sua substituição foi complicada e deixou marcas. Independentemente do resultado de hoje, não vislumbro Peseiro como o treinador capaz de lançar as bases do FC Porto dos próximos 5 anos, ou da próxima década. As constantes declarações de Villas Boas não beneficiam o Dragão, numa futura decisão. O fantasma fica a pairar e a comunicação fica mais complicada de gerir, pois cria-se a expectativa, a ansiedade na mente de adeptos difíceis de satisfazer.

Os adeptos

SL Benfica 7: os adeptos do SL Benfica entusiasmam-se com mais facilidade e, acima de tudo, assobiam bem menos. Algumas exibições do SL Benfica deixaram a desejar e Rui Vitória conheceu tempos complicados, mas vivem-se tempos calmos para os lados da Luz.

FC Porto 5: o adepto do FC Porto tornou-se mais exigente na última década. Os títulos europeus, o posicionamento premium que o clube também fez passar, tornaram os adeptos menos pacientes e mais habituados a ganhar. Ganhar apenas deixou de ser critério. No Dragão passou a ser necessário ganhar, impressionar e jogar bem. Mourinho e Villas Boas foram as referências. Vítor Pereira ganhou muito e bem, mas sem deslumbrar e o adepto assobiou, contestou. Agora há uma sensação de injustiça, depois do treinador ter aparecido num programa de TV, a comunicar melhor, mais genuíno e mostrar o quanto sabe de futebol. Se não há paciência nas bancadas, passará pelo clube gerir este processo que tem em mãos. O futuro vai exigir paciência e apoio, muito apoio.

A liderança

SL Benfica 8: Ainda que considere que Luís Filipe Vieira poderia ter gerido melhor o dossier Jorge Jesus, a sua liderança é inquestionável no SL Benfica. O presidente encarnado só aparece quando é preciso. Para assuntos menos nobres, João Gabriel e até Rui Vieira da Silva fazem as honras da casa. Ao nível da equipa, Luísão tem estado arredado da equipa, mas o seu estatuto é inquestionável. Jonas, Gaitán Júlio César e Samaris são jogadores com caráter que trazem experiência ao clube da Luz.

FC Porto 5: Em ano de eleições, e com a extrema necessidade decidir bem, Jorge Nuno Pinto da Costa errou. Não é habitual, mas acontece. O presidente dos Dragões tem aparecido em público sempre que necessário, porém diria que noutros tempos foi mais incisivo. O FC Porto está mais adormecido. Coube a Lopetegui grande parte da contestação aos árbitros. No universo azul e branco há pouco espaço a crítica na opinião pública, só Miguel Sousa Tavares (com tudo o que tem de bom e de mau) se atreve a dizer aquilo que pensa. Espírito crítico construtivo e fundamentado aconselha-se – ajuda as organizações a evoluírem. Antero Henrique é uma figura de proa no Dragão, mas pareceu invulgarmente fragilizado esta temporada. No balneário, os episódios Maicon e Brahimi soam a sintoma. Quando a braçadeira de capitão vai parar ao braço de Herrera, creio que está tudo dito. Hélton é o capitão, mas joga pouco. Falta um líder, ou falta reconhecer que André André é o futuro líder.

Feitas as contas, relembro que esta pontuação é apenas um exercício mental puramente teórico, o SL Benfica soma 51,5 pontos em 80 (64,4%) e o FC Porto 42,5 em 80 (53,1 %).

Aquilo que pretendo transmitir é: mesmo que o que se passa no campo seja imprevisível, as condições de sucesso são maiores quando existe um alinhamento estratégico e maior coerência em todas as áreas que afetam a vida de um clube, e em especial, nas decisões que afetam transversalmente a organização e todos os seus colaboradores. Nesse processo, a comunicação tem um papel primordial.

 

 

imagem:

marcano_e_samaris_no_fc_porto_benfica3651cc0f.jpg

Julen Lopetegui ao ataque? A resposta.

Julen Lopetegui ao ataque? O técnico espanhol concedeu uma entrevista ao diário desportivo As.com (deixarei o link abaixo). A sua entrevista é naturalmente um primeiro ato de gestão de impressões, isto é, da sua imagem pessoal desde que abandonou o cargo de treinador do FC Porto. O conteúdo é forte.

lopetegui
Julen Lopetegui ex-treinador do FC Porto

Uma breve leitura dos Órgãos de Comunicação Social em Portugal poderá levar-nos a uma interpretação precipitada da postura do treinador espanhol: “em vez de celebrarmos queriam saber se jogava um miúdo da formação” (Record) ou “tínhamos necessidades mais importantes que Imbula”(Maisfutebol). Esta simples leitura relembra-me um Lopetegui zangado com o mundo, chateado com as mais recentes respostas de Jorge Nuno Pinto da Costa.

O meu olhar, de quem vive a comunicação, diz-me que Lopetegui, mais do que atacar, quis-se defender e promover a sua imagem no mercado que mais lhe interessa: o espanhol. Em Portugal, e em especial, os portistas (nos quais assumidamente me incluo) acharão que está errado e que os seus argumentos são pouco convincentes. Lamento informar, mas o FC Porto, os adeptos portugueses, a comunicação social nacional, não são (e provavelmente nunca forma) o público-alvo do treinador basco. Agora, mais do que nunca, pouco lhe interessará o que nós pensamos ou deixamos de pensar.

Para mim, a novidade é o tom cordial, sincero, com algumas frases elogiosas para com o presidente do FC Porto, estrutura do clube e adeptos. Exigência é sempre um bom termo. O Lopetegui, sentado em frente à câmara do AsTV, nunca esteve em Portugal. Eu nunca o vi. Vi outra personagem: irascível, impulsivo, com dificuldade em defender-se, a sentir-se incompreendido (quando não nos esforçamos para perceber a cultura de um outro país, talvez seja isto que acontece). Este facto demonstra falta de preparação para um desafio e pressão, um pouco do problema que Vítor Pereira, noutros moldes, também enfrentou.

Lopetegui está calmo (terá sido aconselhado a isso) diz o que pensa, mas nunca é agressivo. Ao contrário da sua postura no banco de suplentes, que demonstra instabilidade constante, impulsividade e, (sou eu a adivinhar) um excesso de reforço negativo. Aliás, acrescento: Lopetegui é mesmo capaz de sorrir. Uma surpresa. Ele sabe que falhou, está a gerir os danos e a responder ao “convite” que foi feito pelas declarações de Pinto da Costa, durante esta semana.

Os argumentos são válidos? Quanto às saídas dos titulares sim (Jackson, Danilo, Alex Sandro…) Pois, mas Lopetegui aproveita e acrescenta o nome de Quaresma. Conveniente. Se Pinto da Costa está mal aconselhado? Provavelmente, se não (ou caso contrário) não o teria contratado. Nem tão pouco ao brilhante Adrián Lopéz. Quanto a Imbula, não interessa se é um Ferrari ou não, importa é que a globalidade dos jogadores evolua, que existam processos e métodos de treino. A contratação de jogadores não resolve o que o treinador não faz. Em síntese, creio que alguns argumentos são válidos, sim, mas que há toda uma incoerência de comportamentos, atitudes, postura, e incapacidade de reconhecer erros que Lopetegui, agora estrategicamente, serenamente omite.

Para o seu futuro, a entrevista é boa  e tem a peculiaridade de mostrar um treinador que no meu mundo não existe. Para FC Porto, as respostas serão, quiçá, incómodas, mas a imagem de Lopetegui junto dos adeptos, estrutura azul e branca e comunicação social, está tão gasta, que a forma como está a ser apresentada, acaba por ser conveniente para que nunca mais nos lembremos dele.

P.S. Recomendo a visualização da entrevista (pelo menos uns minutos para observar o tom, calma e postura):

http://futbol.as.com/futbol/2016/01/28/internacional/1454013517_970820.html

imagem: oonze.pt

#lopetegui #fcporto #comunicação #reputação