O caso das “bofetadas” do já confirmado ex-Ministro da Cultura João Soares e o “batemos no fundo” de Jorge Nuno Pinto da Costa, em entrevista ao Porto Canal marcam, em definitivo, o final desta semana. Duas frases que merecem a minha atenção por motivos diferentes.

A situação mais surreal, é sem dúvida, a de João Soares que às 06h12 da manhã decide que Augusto M. Seabra e Vasco Pulido Valente merecem umas “bofetadas” logo a começar o dia. Quer dizer, não é a começar o dia, é quando se c(r)uzarem com ele (e não vou sequer abordar as gralhas e a questão da acentuação). Não sei se João Soares, agora que já não é ministro, vai adotar essa estratégia “obelixiana” de ir de tabefe em tabefe e despachar os mais ácidos cronistas portugueses (achava eu que a PAF tinha acabado).  Ou se por outro lado, vai decidir ameaçar todos os portugueses que ficaram felizes com a sua demissão, se for o caso, então o número deve ascender aos milhões.

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João Soares acordou bem cedo para o Facebook e escreve um post a merecer revisão ortográfica.

Quero frisar que não questiono a sua liberdade de expressão (nem ele deveria questionar a dos cronistas), porém dado o seu cargo político e sua longa experiência nestas lidas, teria sido aconselhável outro tento na língua, para, usando o seu próprio termo, não “bolçar” estes comentários para uma página de Facebook, ou como diria Habermas, para a esfera pública. Já era tempo dos políticos saberem que as redes sociais são para ser usadas com critério: no tom, no rigor, na clareza, na educação e, na gramática, é claro.

“O hábito não faz o monge”, nem o ministério faz o ministro.

Além do mais, às 06h00 da manhã, dificilmente poderíamos considerar João Soares vítima de um repasto ou jantar mais regado. (No meu íntimo pergunto: quem é que genuinamente se lembra de publicar coisas daquelas às 06h12?).

Até para um assessor de comunicação não deve ser fácil acordar tão cedo para evitar tal insanidade. Porém, se eles existem, é também para isto: evitar que a comunicação política e pública se torne leviana, impulsiva, egocêntrica e insana.

O pedido desculpas chegou tarde e a demissão foi “naturalmente” aceite. Soares fez um haraquíri sem honra. O país agradece, creio que António Costa também. 

Passando ao universo azul e branco, Pinto da Costa brindou o universo portista com uma entrevista recheada e embrulhada na palavra caráter. Palavra essa repetida vezes sem conta. De sublinhar a postura incisiva e determinada do presidente dos Dragões – como há muito não se via. A entrevista surge num momento importante, em que a voz de Pinto da Costa era mais do que necessária para amenizar a crise.

Apesar de olhar para a entrevista como uma boa resposta para o cenário de crise que se vive nas Antas, a meu ver há dois aspetos em que a comunicação poderia ter sido mais assertiva: 1) O uso do termo (sound bite) “bater no fundo”. É forte, mas vai fazer (ou melhor fez) manchetes e tirou impacto à palavra “caráter” tão usada ao longo da entrevista. Só o jornal O Jogo optou pela via do caráter. Além disso, o “fundo” é um termo relativo.  Às vezes é possível ainda ir mais fundo do que se imaginava. Não gosto do termo, não gosto da expressão. Gosto do assumir dos erros, da frontalidade, mas não aconselho o uso de uma palavra que vai pulular o universo azul e branco durante semanas e semanas. Há formas igualmente incisivas e eficazes de dizer isso. Não é porque perdeu com o Tondela que o FC Porto bateu no fundo. Já vi derrotas mais embaraçosas. Se está no fundo, já o estaria bem antes desta derrota. Reforço, não usaria essa palavra, mesmo que ela seja dita e repetida vezes sem conta nas redes sociais.

Em tom de conclusão, uma ótima entrevista pode ficar a dever a si própria o uso de uma frase má. “Se o hábito não faz o monge”, uma frase pode muito bem fazer uma entrevista.

 

imagem: ohomeminvisivel.com

 

 

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