“O” Covid e “a” Covid – ou como falar português

Admito não consigo dizer “a” Covid. O meu ser não encaixa, não deixa. Porquê? Eu sei que forma correta é “a”, mas digo “o”. Descobri que é propositado – pode ser o meu lado nortenho a falar mais alto -, mas dizer “a” Covid, como doença que é,  é demasiado higiénico, limpo até. É demasiado cirúrgico para algo que nos revolta, que nos consome o tempo, a alma, a economia, a proximidade, o toque e os abraços daqueles que nos são próximos.

Para mim, ao contrário do arrepiante e repugnante “chegaste(s)” com esse “s” a mais, ou de um “troca-mos”, em vez de um trocamos, é perdoável, é desculpável, mais do que isso é compreensível dizer “o” Covid. Até podia referia confusão do “novo” Corona (que para mim é coroa e marca de cerveja, logo seria “a”), mas não, nada disso.

Já chega de meandros e subterfúgios, dizer “o” Covid é uma manifestação protesto, é uma libertação, é uma revolta, uma insurreição – vem do âmago, é como soltar um f…., com alma e vontade. Dizer “o” Covid tem um certo desdém, desprezo, uma bruta emoção que nos apela ao instinto de sobrevivência e dizer-lhe “que podes vir, que eu vou lutar com todas as minhas forças”. 

Ao mesmo tempo, que “a” Covid é admitir algo mais silencioso, mortífero, cirúrgico, venenoso que eu sei que vai chegar e, relativamente à qual tremo de medo em silêncio.

 Dizer “o “ Covid é dizer logo ,antes de qualquer outra coisa, “oh pá, pira-te, vai-te embora, não te quero aqui”.

“O” Covid é um adamastor, um monstro ancestral, tem uma personalidade, mais do que um arquétipo tem algo de humano e, como algo de humano, é destrutível, falível e “tem de se avir comigo”, tem falhas, logo vou tratá-lo como ele merece.

Para mim, a comunicação é muito isto também, encontrar formas de dizermos o que nos vai na alma, mesmo que às vezes tenhamos incorrer num português menos delicado, menos perfumado, mas que tem essa extrema capacidade de atribuir sentido, emoção e expressividade com uma simples troca de um artigo.

Ensaio sobre a incoerência: a comunicação, o governo e a emergência

Confuso. Sem saber o que pensar. Sinto-me meio despido da minha liberdade, sinto-me meio apreensivo com a liberdade do outro, mas acima de tudo sinto-me perdido, enganado, indignado, resignado pela “sopa de pedra” que nos é servida em regime diário. A falta de claridade, clarividência, lógica e objetivo das medidas do nosso Governo, mas também na sua manifesta incapacidade (propositada ou não) para comunicar, mais do que me revoltar, assusta-me.

O que eu ensino não se pratica, ou pratica-se muito mal pela instituição que é suposto zelar por todos nós. Como se comunicar medidas fosse uma longa temporada de “sketch” de “Onde está o Wally?”, (entenda-se o Wally como a metáfora para a medida e para a sua excepção).

Os sábados à noite agora são diferentes. Muito diferentes. É ao sábado, bem à noitinha que nos perturbam as novidades das novas medidas restritivas que temos de enfrentar para a pandemia. O almoço de domingo é agora um pró-forma, um espécie de protetor gástrico para enfrentar a semana. Vou comer, beber até me fartar, para me tornar sonâmbulo para a angústia do dia seguinte.

Admito que nem sempre sou a pessoa mais coerente do mundo, já comprei quando devia poupar, já falei quando devia calar, já anuí quando devia reivindicar. Mas, quando estamos a gerir organizações e instituições, devemos ter uma visão, um foco, uma meta, um objetivo que nos faça todos remar para o mesmo lado, que nos faça acreditar no dia seguinte. Mas, não. Há anos que não temos um Governo com uma visão para o país, uma estratégia que nos seja dita e comunicada de forma clara. Navegamos de orçamento em orçamento, de discussão em discussão, de tema em tema, até que uma pandemia deixa tudo a descoberto, a nu.

Não há visão, não há metas, há apenas uma “agenda” (que nós desconhecemos) e o salve-se quem puder do dia a dia.

Mas, voltemos a Março. Lembrem-se “não usem máscaras”, até porque não as sabem usar. É perigoso. Eu usei, praticamente desde o dia um. Se não havia máscaras para todos, então isto devia ter sido dito. Talvez, nos juntássemos, talvez estivéssemos unidos num desígnio comum. 

No meio da distração das eleições americanas que segui atentamente, todos falaram da “verdade”, do regresso da mesma. Então e aqui? Ela vale menos?

Não faz mal, porque continuámos a ter a Graça e a Marta (com o devido respeito, mas são os seus nomes) a meter os pés pelas mãos em direto. Depressa nos apressamos a tornar o nosso país COVID-SAFE, a estimular o sonho da noite de verão – afinal a curva já estava a achatar. Assisti, em vários locais ao desleixo, às filas, ao desapego de quem vive e nada se passa.

Então e a segunda vaga? Não ia haver uma segunda vaga?

Mas, voltando à comunicação? Eu insisto com os meus alunos, que o sucesso em comunicação é a soma das pequenas coisas que conseguimos alcançar todos os dias. Ela deve ser contínua, clara, coerente…E cada ação, cada medida deve ter uma meta, um objetivo.

Então vamos fazer uma pequena viagem:

1. Porque motivo alguém achou que manter as feiras encerradas era pior que manter os centros comerciais abertos (rapidamente recuaram lembram-se?).

2. Qual a diferença de um restaurante fechar às 22h30 ou às 23h00? Qual a diferença de um centro comercial fechar às 22h00 ou às 23h00? (está lá mais gente? Se o horário for mais disperso não há menos concentração de pessoas)?

3. Não podemos ter celebrações com mais de 5 pessoas, Mas, podemos jantar com 6…

4. As aulas do ensino superior devem manter-se presenciais, mesmo que não haja as condições de ventilação adequadas, ou salas suficientes para garantir a segurança num campus universitário. Além do mais, os alunos almoçam juntos, lancham juntos…e muitas vezes juntam-se em amena conversa, enquanto fumam o seu cigarro.

5. Nos próximos dois fins-de-semana, só podemos andar na rua até às 13h00. Certo. É para quê? Digam. Evitar os almoços em família?

6. E o setor da restauração? Os proprietários de bares e discotecas vão viver de quê? Que soluções são essas?

7. Vamos ter professores de horário zero a fazer rastreios? Porque motivo eles estão em horário zero? Já pensaram nisso?

8. E a medição de temperatura? Humm…Vou tomar um paracetamol e já volto.

9. O trabalhador pode exigir o teletrabalho, e as empresas que ameaçam se o trabalhador assim o fizer? Acham que há ambiente, se isto acontecer?

10. Só faltou a #hashtag – “vamos salvar o Natal”. Não é o Natal que precisa de ser salvo, somos nós todos. Eu prefiro viver, manter a sanidade mental e guardar o peru e o bacalhau para o Dia de Reis…ou para a Páscoa (e celebramos a verdadeira ressurreição).

12. Há 121 concelhos com restrições. E será que não há cidades e concelhos onde testam menos, para que isto não aconteça…? Quando não há clareza e consistência, o rumor aparece.

As medidas têm de ser anunciadas, mas justificadas na mesma medida, na mesma forma clara e concreta, anunciando o que se espera conseguir com essa mesma medida (lá se vão os objetivos SMART). Mas, isto nunca é feito. Nem que números se espera obter ou conter. Exemplo: grande parte do contágio é feito por contacto familiar. Claro, mas convinha especificar o contexto. Como podemos evitar isto? Medida? Resultado?

Depois, é deixado para a Comunicação Social o dever de nos explicar as medidas, de fazer questões, quando a informação da DGS do Governo é implícita, dúbia, pouco clara. Não há ações, campanhas de sensibilização a sério, com impacto, que fale a “linguagem das pessoas”.

Façam diagnósticos, assumam o que há para melhorar e façam-no. Mas, falem connosco, não nos atirem areia para os olhos, pois assim não há confiança, não há crédito, não há reputação.

A comunicação e a informação devem caminhar de braço dado com a verdade, com a clareza e com o propósito e, infelizmente, isto não acontece.

Se me perguntarem se concordo com as recentes medidas? Não sei. Como posso concordar com algo que me foi mal explicado?

O homem sonha e a obra até nasce…

Qual a tua visão ? Pode uma simples pergunta ser assim tão importante? Acredito que muitos de nós procuramos um propósito naquilo que fazemos ou naquilo que sonhamos fazer. Então, porque parece tão difícil estabelecer uma orientação, um caminho que permita de forma clarividente permitir ter a confiança, a competência para alcançar a almejada meta? Diria que ela se vai manifestando ao longo do caminho, se a ele estivermos atentos, se ao “caminho” ousarmos ouvir e falar com ele.

O homem sonha, a obra até nasce, mas não imediatamente.

A obra nasce fruto de trabalho de inspiração, de expiração de muita desorientação, de muita descoberta e também, felizmente, de muito prazer. Recuso acreditar que o sucesso só pode manifestar-se através de trabalho árduo, daquele que para além de fazer doer as mãos, faz doer a alma e faz sofrer a mente. A este nível, talvez seja das pessoas que acredita na felicidade, na satisfação pelo processos, que são as nossas paixões, aquilo que nos faz sentir motivados, inspirados, apaixonados e agarrados à vida que nos dá o ímpeto para seguir em frente, face à dificuldade, ao mesmo tempo que somos capazes de o fazer de sorriso no rosto.

Hoje, tenho uma noção mais clara que vive em mim a vontade, a visão de tornar a comunicação mais humana, à qual damos mais atenção porque é ingrediente fundamental para uma vida pessoal e profissional melhor, mais viva, mais inteligente, mais sagaz e mais feliz.

Esse desígnio ou propósito dá sentido às coisas que faço, dá-lhe uma prioridade, uma direção. Afinal o mindset, dá confiança e faz-me ver melhor a enorme montanha que tenho a minha frente, mesmo que saiba que provavelmente é em mim (como em todas as outras pessoas) que residem os maiores obstáculos e distrações.

“Somos todos humanos” (esta frase é tão boa que desculpa quase tudo).

Tudo isto para vos dizer o quê? Foi através de experiências que cheguei aqui. A minha viagem pelo mundo, clubes e competições de public speaking ensinou-me muito, sobre comunicação, mas em particular sobre mim. No início sentia (e ainda sinto) sempre que crio ou improviso a chama da comunicação, a paixão e o gosto que me dá. 

Sinto também de forma muito única o prazer de agradar a plateia (demorei mais de trinta anos a deixar de ter vergonha de sentir isto). Gosto de sentir a audiência de olhos abertos, atenta, regalada. Seja num discurso, numa formação, numa aula. Gosto desta interação. Sem vergonha, sem medos. Porém, em algumas performances que para mim eram profundamente extasiantes, entusiasmantes, comecei a perceber que para algumas pessoas eu seria uma “espécie de alien” entusiasmado, vivo, mas talvez um pouco enérgico ou bruto até.

Esta pouca empatia criada talvez junto de algumas pessoas mais sensíveis, mais ansiosas face à prática de comunicar em público, despertou-me o interesse. Porquê? Assim, perguntei a mim mesmo, porque é que algumas pessoas sentiam quase um certo “medo” de falar comigo ou de dar-me algum feedback. Sim, acontecia e vai quase sempre acontecer.

“Lembrem-se que não somos pizza para agradar a toda a gente”

O motivo parece-me até muito simples. Em primeiro lugar, eu fazia discursos, treinava e praticava por mim, pelo minha vontade de aprender, pelo meu prazer, pelo meu Ego que queria muito mostrar o tanto que estava a evoluir. A eterna procura por um reconhecimento. Algo não estava afinado, polido.

Nesse percurso pelos clubes de Toastmasters onde se aprende muito, em especial com as pessoas que se encontram, são muito valorizados aspetos relevantes de um discurso como a sua organização, a variedade vocal, a linguagem corporal e a forma como exploramos o espaço à nossa disposição. Qualquer pessoa, independentemente do nível evolui muito em 3, 6 meses…(Eu andei por lá 6 anos, e bem. Quando a pandemia passar logo vejo…) .

Um dia, pediram-me para participar num evento, e partilhar a minha experiência em competições internacionais de public speaking. Em vez de me preocupar com a linguagem corporal, a variedade vocal…apenas pedi uma cadeira!?

Em palco para talvez 60 ou 70 pessoas, falei para as pessoas sentado, como se estivesse à mesa a partilhar uma conversa e um copo de vinho. Falei da fragilidade, falei de que ainda hoje fico nervoso e ansioso, que tenho inseguranças e que dia a dia as enfrento, sublinhei que sou humano e que foi o treino, a vontade, a paixão e a procura por um desígnio que me levaram até ali. Foi simples, foi humano, foi tão fácil e tão bom. Foi eterno.

Nesse dia, aquelas pessoas que em outras circunstância se afastariam de mim, falaram comigo e partilharam, falaram da sua ansiedade, do nervosismo e da imensa vontade de melhorar.

Ali, naquele momento, sinto que acrescentei uma das mais importantes peças do caminho – é essa a comunicação que quero, aquela que me aproxima de outros seres humanos.

A minha visão, tal como a vossa, constrói-se diariamente e felizmente, por obra do acaso também podemos alterar o rumo e mudar de ideias. Olhem o horizonte, definam para onde vão, tenham uma direção, assumam a vossa vontade e tenham prazer pelo caminho. Com uma visão, a comunicação nunca será um senão.

O professor que virou podcaster

Ia começar por dizer que chegou a casa, mas não chegou a casa. Ele já estava em casa. Faltavam dez minutos para começar a aula, ligou a máquina de café, olhou pela janela e respirou fundo…São mais 3 horas. Preparou o copo de água, foi ao computador, ligou o Teams ou Zoom (nesta altura já tanto faz…achou ele) e escreveu “Boa tarde…a aula segue dentro de momentos”. (Ainda tenho uns minutos. Tirou o café, saboreou o travo amargo do café sem açúcar, sentiu aquele “kick” de ânimo a subir)

Lights ON. Ligou as luzes, o micro (a vaidade faz algumas pessoas investir um bocadinho na tecnologia e num bom set). Só falta mesmo a estante com os livros atrás. Pegou na câmara HD, porque a do portátil é do século passado e disse “boa tarde”. Sorrindo para a luzinha azul a piscar.

Aguardou, os alunos foram entrando na pseudo sala. E ele diz “vá lá, agora liguem as câmaras”. Silêncio. Como sabem numa sessão online é de bom tom ter o micro no off, para não haver ruídos, feedback…entre outros episódios. “está alguém desse lado?”. “Sim” – ouve-se, diz uma alma do outro lado do ciberespaço.

A sensação de vazio apodera-se (será que vou ter suplicar novamente, de novo…). “Então, não ligam as câmaras porquê”? – “o meu computador é de secretária e não tem webcam”. – “E o smartphone não tem a app”?) Segue-se o ensurdecedor silêncio.

Depois, um manifestar passivo de insatisfação que não adianta nada. No seu interior, surge como um invasor a ideia muito clara que do outro lado está alguém a pensar “podes protestar à vontade, mas não me podes obrigar. Vou continuar a jogar PS4”. Resignação. 20 pessoas na sala, estava a ver duas. “Podia ser pior, pensou…”

Passado um pouco, “João está aí? João? (silêncio)… Passado um instante, “professor, desculpe…estava na cama e adormeci”.  (Na sua mente, uma facada, eram estacas, um punhal pelas costas….).

A partir daí vagueou como um zombie pela matéria do dia, como podcaster sem audiência e a pensar como se poderia transformar num Nuno Markl ou Pedro Ribeiro das emissões radiofónicas na qual se tinham transformado as suas aulas.

“Quinta-feira vai ser diferente pensou”.

O dia chegou, finalmente entrava pelos corredores vazios da instituição em que lecionava, era a primeira aula presencial em 6 meses. Na sala entraram duas pessoas, as mesmas pessoas que tinha visto na câmara. Ligou a plataforma (sim, havia a permissão para ficarem em casa). Lá estavam, os outros. “Mas, vão assistir digitalmente? – perguntou”. – “Sim, ó professor, dá muito trabalho ir até aí, fica longe…” Então e as câmaras?!”

Silêncio.

PS: Os professores são seres humanos.

Ao Chega diremos Basta!

Não. O Chega não vai ser o maior partido português em 2027, nem em 2049, nem o André Ventura é Nostradamus, nem eu vou ganhar uma Bola de Ouro. Não. Ponto. Não neste mundo e não no nosso Portugal. Antes que uma mentira, ou um devaneio, seja repetido demasiadas vezes, é importante por os pés no chão e não distorcer a realidade.

Já vi pelas redes sociais, medo, revolta, receio e indignação com resultado do Chega. Eu assumo, mais do que indignado estou triste, porque no séc. XXI nós já devíamos saber mais. Mas, não estou assustado. Não, com André Ventura. Assusta-me mais a onda que se cria e “hype” (ou exagero) que traz notoriedade dá mais voz a estes movimentos.

Será o Chega extrema direita ou será mais uma direita “oportunista”? Um fogo de luzes orientado para dizer o que mais interessa a cada momento? Será que vamos transformar o país num relvado e quatro linhas, em que André Ventura será chamado a intervir e dar opinião? Não acredito. A política é bem mais complexa do que um jogo ao fim-de-semana…

Mensagem simples e direta visível nos suportes de comunicação do Chega

Já vi pessoas a profetizarem que agora vai ser sempre a crescer – eu não acredito, pois não vejo em André Ventura um líder, alguém capaz de inspirar multidões, alguém preparado para disseminar o ódio pelo ódio em detrimento do proveito próprio. Felizmente. Vejo sim alguém que tirou partido da conjuntura polémica que resulta dos diversos casos que pululam na comunicação social – o nepotismo entre a “família” socialista, o inusitado caso de Tancos, o caso Marquês, a corrupção, o sentimento de insegurança – para aproveitar o seu espaço mediático para se afirmar (qual justiceiro de “pulseira” e espada) e dizer o que um certo “povo” quer ouvir: “chega”, “basta”… E é tão fácil dizer isto, quando se sabe que não se vai governar, quando se sabe que se estará do lado de fora. E para tantas pessoas é tão fácil ir na onda quando se está cansado de lutar… É tão fácil cavalgar essa ideia quando a culpa é sempre dos outros, quando se esquece que juntos podemos ser um pouco mais fortes.

Voltem atrás no tempo, façam esse exercício. Marinho e Pinto e o seu PDR  bateram à porta da injustiça e da corrupção e conseguiram um deputado europeu, em 2014.

O “justiceiro” é um arquétipo que todo nós sabemos identificar e esse espaço estava “vazio” desde que Marinho e Pinto provou do seu próprio veneno. Teria o PDR este resultado se Marinho e Pinto ainda tivesse lugar cativo nos programas da manhã? Em 2015, o PDR teve 60.988 votos, agora teve 9 mil. O Chega chegou aos 66 mil votos. Desejo-lhe o mesmo fim. 

Interessa-me perguntar “como chegamos aqui?”…Como quis deixar claro, o populismo não é novo. Aliás, se Hernâni Carvalho criasse um partido, provavelmente conseguiria um lugar – a mensagem é simples, clara e funciona.  

Para mim, é da responsabilidade do anterior Governo, ora por incompetência, desleixo e/ou irresponsabilidade, ter dado argumentos para que este tipo de discurso encontrasse mais espaço. É da responsabilidade deste e anteriores Governos não sermos capazes de enunciar uma estratégia para o país, preferindo negociar ano a ano, orçamento a orçamento, de medida a medida ou de gerigonça em geringonça.

Mas, também da responsabilidade dos partidos de direita, como o CDS, não terem uma comunicação coerente, precisa capaz de encontrar um lugar na mente e no coração das pessoas. Não posso deixar de recordar que Assunção Cristas teve um resultado nas Autárquicas de Lisboa que a fez acreditar que poderia chegar ao poder, ao mesmo tempo que camuflou o verdadeiro estado do partido a nível nacional. Ontem, foi para casa às nove da noite.

É da responsabilidade de Rui Rio ter sido arrogante e pouco competente durante 2 anos de deserto, numa oposição estéril. É da responsabilidade do PSD ter andado mais preocupado com as lutas internas do que com o futuro do país. E foi de lá que saiu André Ventura, foi no PSD, no tempo de Passos Coelho, que o colocaram à frente de uma lista para a Câmara Municipal de Loures. Ele fez o seu caminho e aproveitou e, segundo o que que diz a Visão também aproveitou para plagiar o programa de Manuel Monteiro. Palavras para quê? Se este fosse um movimento ideologicamente forte, teria mais espaço e mais orgulho nas suas próprias ideias. Para mim a sua agenda é outra e é bem mais pessoal. 

O passar do tempo, ao longo dos próximos 4 anos, trará novidades:  acredito que o Livre (que grande coragem) e a Iniciativa Liberal (que grande campanha, à qual só faltou um rosto) têm pernas para andar e seguirem o exemplo do PAN – crescerem e ganharem o seu espaço. Quanto ao Chega a seu tempo diremos Basta, pois o tempo mostrará o que este movimento tem para dar: absolutamente nada. 

A figura de parvo e a privacidade

Vamos ser sinceros, há momentos que fazem de nós parvos e isso acontece ora por inocência, ora por desleixo ou simplesmente porque naquele momento, por algum motivo, não queremos saber. É um risco. Agora, o problema (emocional, é claro..porque ele já lá estava) começa quando conscientemente sentimos que estão a fazer de nós parvos… Tudo começou quando decidi aceder ao Maisfutebol para saber o resultado do Brondby – SC Braga. O que é que isto tem a ver com privacidade? Já vão perceber…

Entretanto, atirem um número: quantos sites podem estar a monitorizar a vossa presença online num site como o maisfutebol.iol.pt ?

Primeiro vamos ao contexto: talvez tenha sido por recentemente ter visto o documentário “The Great Hack”, a verdade é que ando mais criterioso com o clicar no botão de aceitar tudo, no que respeita a “cookies” que os sites disponibilizam para “poupar o nosso tempo”. Diria que em muitos sites o processo é simples, em 4 ou 5 cliques a coisa fica resolvida. Como é o caso do periódico espanhol http://www.marca.com .

Como podem ver em baixo o processo é simples, se eu quiser discordar é fácil. Na verdade, as empresas estão a fazer o seu papel e quanto a isso nada contra. Estou a navegar e estou ciente de que podem estar a capturar os meus dados se eu assim o permitir.

O que me tirou do sério, foi eu ter cometido o “erro” de querer fazer a triagem no http://www.maisfutebol.iol.pt que decidi ver o resultado do Brondby-SC Braga. (na verdade nem cheguei lá…)

Em primeiro lugar há um botão para aceitar tudo. Perfeito. É o que eles querem. Então e o botão para rejeitar, anular tudo? Onde está? Caramba, onde está? (e é aqui que a minha mente começa a praguejar e a dizer palavrões) Pois, não há. E aí é que sinto que me estão a fazer passar por parvo. É aquilo a que podemos chamar de vencer o cliente pelo cansaço.

Dizem que “damos valor à sua privacidade”. Ai não não dão, senão não me faziam dar mais de 500 cliques (não é exagero…perdi a conta a partir dos 400 e tal), para conseguir anular cookies que dão acesso à minha localização geográfica, acesso a informações, correspondência offline de dados…enfim, seja lá o que é que algumas daquelas coisas significam. O panorama que encontrei é o que podem ver em baixo…páginas e páginas de infinitas empresas que monitorizam os nossos dados. O número de 500 referências assusta? Um bocadinho.

Uma lista infinita…
e lá fui eu de A a Z

Quanto ao maisfutebol e a quem gere este grupo, pelo menos uma coisa é certa: valorizam os meus dados, até porque não fica a dúvida de que aproveitam para os vender, infelizmente aquilo pelo qual não têm respeito, é pelo tempo do utilizador, nem pelo lado “democrático” de ter uma experiência séria no que concerne à opção de decisão na proteção dos seus dados.

E sim, dei-me ao trabalho de rejeitar tudo, porque se há algo que me revolve o estômago é a de conscientemente fazer figura de parvo.

Escrevo este post para sensibilizar e porque para mim a forma como se comunica diz muito sobre o emissor da mensagem e sobre a sua postura, valores e princípios. Neste caso bastava apenas mais um opção.

Ah, e o Braga ganhou 4-2.

Do Zeinal já ninguém se lembra…

Podemos parar? Desculpem podemos parar para pensar? Um dia que seja? Apenas um dia? Só um? Andamos nisto há meses, com a constante promessa de continuar. Andamos nisto há praticamente um ano (ou mais)…e continuamos a alimentar o monstro. Sim, isso mesmo. Nós. Quanto mais atenção lhe damos, mais o legitimamos e mais força damos àqueles que o apoiam. “Falem bem ou mal, mas falem de mim…” Podemos ser, pelo menos um dia, mais portugueses e menos americanos? Ou pelo menos mais do mundo?

Ele não é da minha família, mas vejo-o mais vezes que qualquer um dos meus irmãos.

Eu não jogo futebol com ele, mas sei o que ele diz no balneário sobre as mulheres. Eu não sei quais os meus amigos que abrem a porta do carro à namorada ou namorado, nem sequer se lhes puxam a cadeira para sentarem ou se lhe abrem a porta. Mas, dele eu sei. (Também não era preciso muito para saber, mas na verdade nem me interessa. Não quero saber.) Eu não faço ideia quantas pessoas estiveram no concerto da minha banda preferida, nem na cerimónia do Marcelo, nem tão pouco quantos goeses receberam em êxtase o António Costa. Mas, na cerimónia de tomada de posso dele, eu sei.Será que preciso de saber? Não, porque há coisas que não precisam serem ditas ou mostradas, para terem relevância ou se saberem.

Eu não sei quem são os concorrentes da Casa dos Segredos, tal como não quero saber quais os segredos que ele guarda no seu dourado armário.

Eu não sei quem são a maioria dos assessores dos políticos portugueses, mas os dele eu sei e até sei que um dos assessores se enganou nos números..e na verdade, também sei que vi o Zeinal dizer que não se lembra. Infelizmente, sei que quase já ninguém se lembra.

Eu não sei quem votou nele, eu não sei quem votou no Brexit, eu não sei quem é que dá suporte ao Erdogan, nem tão pouco quem defende Putin. (Por falar nisso, nem sequer faço ideia se o Vladimir Putin é casado ou se tem filhos. Sei que praticou judo e pouco mais – e nem sequer me sinto tentado em ir ver ao google). Mas, sei que o meu mundo, não pode ter sido. O meu mundo, nunca faria aquilo.

Mas, se calhar também o meu mundo não faria uma marcha de mulheres, porque o meu mundo não tem género – Somos Humanos e marchávamos todos juntos.

E se existe a necessidade das mulheres fazerem uma marcha, é porque o mundo dele prevalece sobre o meu mundo. Desse modo, é também o mundo dele que faz com que eu saiba muitas outras coisas sem importância e que faz com que eu esqueça muitas outras importantes. É o mundo dele que se expõe na sombra. Não o vemos, mas está lá.

Eu sei, sem dúvida, que o mais perigoso inimigo é aquele que não se vê. Hoje esse inimigo tem uma face mais visível, mas mais perigosos são os líderes que na sombra e na frieza gerem e controlam a impulsividade e que esperam, esperam… Desses as páginas do Facebook e do Twitter pouco falam e são apenas lembrados e investigados, acima de tudo, por aqueles que são obstinados a procurar a verdade.

 

E por isso, hoje não digo o nome dele e não o vou escrever. Não porque o esqueci, mas porque sei que dar-lhe valor é alimentar os fait-divers. Assim, eu reforço, podemos parar? Podemos ser mais portugueses? Podemos deixar a César o que é de César e o nosso ao que é realmente nosso?

imagem: http://www.freeimages.com/photo/stop-button-1471632

A prova olímpica da fila de espera do hospital e os brilhantes resultados

Jogos Olímpicos? Medalhas? Nada que se compare ao esforço hercúleo de um jovem de quase 83 anos, com mobilidade reduzida e de poucas falas, na longa espera numa cadeira de rodas para uma consulta de otorrino do Centro Hospitalar S. João. Vá lá que até não está muito calor, não há algas a atrapalhar e as paredes estão pintadas de azul. Falo do meu pai, é claro, que fui acompanhar a uma consulta (a par da minha mãe) de otorrinolaringologia. Curiosamente, a pessoa que se portou melhor foi ele. Quase duas horas impávido e sereno à espera de uma consulta que deveria ter o seu início às 11h20 (sendo que o cliente deve apresentar-se com meia hora de antecedência) e a consulta teve lugar muito perto das 13h00. Querem saber os resultados? Brilhantes. É seguro trouxe uma medalha. No final dir-vos-ei qual.

Na completa certeza de existirem problemas bem mais graves no nosso querido Serviço Nacional de Saúde, admito que há “pequenos” pormenores que fazem alguma espécie e dos quais me apetece falar sobre e dos quais farei um breve retrato cronológico.

OLYMPUS DIGITAL CAMERA

A marcação da consulta

Comecemos pela marcação da consulta: a consulta teve lugar na passada semana, mas deveria ter sido realizada anteriormente. Acontece que o Salgado sénior ainda não tem o dom da ubiquidade e não consegue estar na consulta de neurologia e de otorrinolaringologia praticamente ao mesmo tempo. Duas cartas, duas consultas, o mesmo dia. Começou bem. A segunda foi adiada. Parece-me que isto é algo que os sistemas informáticos poderiam facilmente prever.

A segunda carta chegou com a marcação da data e hora e o aviso para chegar 30 minutos mais cedo. Rápido, direto. Quase parece profissional e organizado, nada parecido com os relatos anteriores de longa espera no mesmo serviço.

A entrada no parque

Chegados ao hospital, comunico na portaria que pretendo entrar porque tenho comigo um paciente com mobilidade reduzida e a resposta foi a evidente “pode entrar, mas não pode estacionar, tem que por o carro lá fora”. Ainda bem que fui acompanhado, senão, desculpem o termo “despejava a encomenda” (que é assim que a pessoa se sente) e deixava lá, até conseguir voltar. Entre voltas e voltas, lá estacionei a viatura a uns 5 a 10 minutos a pé, com duas horas para o parquímetro. Tive alguma sorte por serem as férias escolares das universidades, senão nunca encontraria um lugar próximo – a entrada é quase em frente à Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto. Se eu sofri com isto, seguramente outras pessoas sofrem muito mais. Reforço que à porta do serviço de Otorrinolaringologia tinha seguramente uns bons 10 lugares livres.

A entrada no serviço

Quando transportamos alguém numa cadeira de rodas (nem consigo imaginar para quem as usa) o mundo muda um pouco de figura. Reparámos nos passeios, nas portas, nos degraus, em todo e qualquer obstáculo. Seria de assumir que a entrada no serviço de um hospital estivesse preparada para o efeito. Pois, é isso mesmo, não está. Se subir um ou dois passeios, nem foi demasiado difícil, o facto da cadeira de rodas nem sequer passar na porta teve o seu momento caricato: bato uma vez contra a porta, bato duas, olho lá para dentro e nada acontece. A funcionária da receção do serviço, em vez de ajudar ou manifestar-se de alguma forma, fez de conta que não era nada com ela, até que lhe pedimos autorização para abrir a outra portada. Simpático, não acham? Chegámos minutos antes das 11h00. Tirámos a senha e eu desapareci por uns bons 20 minutos à procura de estacionamento.

A sala de espera

Feito o aquecimento, estávamos agora os 3 preparadíssimos para a prova olímpica da espera. Ponto a favor: a cor azul da sala, não estava muita gente e tudo parecia calmo. Demasiado calmo. Qual nau parada no meio de um oceano sem corrente. Morrer à fome não morreríamos, já que a máquina de vending estava estrategicamente colocada à entrada do serviço, acompanhada de alguns snacks saudáveis, cheios de sal e açúcar. Nunca me debrucei muito sobre isto, mas há uma certa ironia na “imensa” variedade de produtos que conseguimos comprar nestes lugares. A televisão seguia sem som, ao ritmo das praias olímpicas e o senhor Salgado continuava assim estático parado à espera. O ar condicionado continuava feroz a arrefecer a sala, ou simplesmente a ventilar a frieza da funcionário da receção.

Aliás, a frieza era tanta que nem me consigo recordar da sua cara. Recordo a voz, mecânica, seca, fria. Estou certo de que um robot cumpriria melhor este serviço, se é para perdermos a humanidade, as emoções e a simpatia, então prefiro máquinas – pelo menos podem ser programadas para nos tratarem bem.

Passado uma hora, a par da minha mãe inicio a típica conversa da incompetência, em tom alto o suficiente para que a funcionária e os outros pacientes a ouçam. Marca consultas tem lógica, se o paciente for atendido a horas, se não vai ser atendido a horas, deve ser avisado, ou por telefone, ou por SMS ou até ao vivo se o cliente já lá estiver. Mais do que um direito, para mim é um dever ser informado do tempo de espera médio. Se o médico não está lá, devemos ser informados. É simples, ficamos preparados e até agradecemos. Sem informação e com indiferença ficamos revoltados. Levantei-me e vi a fantástica caixa de sugestões e reclamações. Está lá a caixa, está lá a informação, mas o formulário não. À medida que alguns pacientes são atendidos, recordo que até nos autocarros e nos metros existem prioridades nas quais encontramos grávidas, idosos, pessoas portadoras de algum tipo de deficiência…mas, neste serviço não. Disso não há.

Entre um encolher de ombros de resignação, o Salgado sénior mantinha-se firme em cumprir o seu desígnio. A sala esvaziou continuamos lá, voltou a encher, voltou a esvaziar. Se fosse um jogo de futebol. o Salgado sénior terminava o jogo com a folha irrepreensível e eu seria o jogador que se arriscava a ir para rua por chamar incompetente ao árbitro por não ter assinalado o merecido penálti. Chegados às 12h45, insisto com a minha mãe para falar com a robótica funcionário, já que o médico em anterior aventura, se havia manifestado surpreendido por terem deixado uma pessoa daquela idade tanto tempo à espera.

Senhor doutor uma palavra para si: QUALQUER PESSOA MERECE SER ATENDIDA A HORAS, MERECE SER AVISADA, SER BEM TRATADA e TER INFORMAÇÂO, ainda que aceite que umas merecem um carinho mais especial. Dignidade.

A minha mãe dirige-se à funcionária insistindo que estávamos à espera há demasiado tempo. Esta responde algo parecido com  um “vou então ver”.  Milagre. Dois minutos depois fomos atendidos. A consulta durou pouco mais de 2 minutos. Viram a corda vocal e disseram que o problema é neurológico, logo nada mais haverá a fazer naquela especialidade.

A medalha

Quanto à merecida medalha, o meu pai enverga-a desde então: tosse, muita expetoração e uma potencial infeção respiratória, provavelmente devido à longa exposição ao frio do ar condicionado numa sala tão pequena ou pelo contacto com algum paciente no hospital.

Como disse anteriormente, há seguramente problemas mais graves no nosso SNS, no entanto, alguns poderiam ser evitados, através melhor comunicação, melhor organização e mais informação – processos simples de implementar e de pessoas que não se importam de ser humanas.

 

Já nada é segredo: as leaks, o big data e a reputação

Nada mais é segredo, ou quase nada. Segredo (e não vou usar o termo privado), em muito pouco tempo, passará apenas a ser aquilo que guardamos para nós, até que um vírus ou um outro qualquer sistema de data mining aceda ao nosso cérebro e faça um simples rastreio do que pensamos e do que sentimos em qualquer momento do nosso dia. Conseguem imaginar a nuvem de palavras mentais que produzimos a cada minuto? Imaginem agora uma “backdoor” uma porta dos fundos para poder entrar no território mais inóspito do nosso ser. Estão preparados?

Quando tudo pode ser convertido em código, em zeros e uns, em que tudo aquilo que fazemos passa a ser monitorizado por alguém, nada mais é igual. A esfera pública de que fala Habermas é cada vez mais um enorme ciberespaço povoado pela partilha e  de conteúdos pessoais que estão algures a ser monitorizados. Estar ligado, estar online, significa aceitar a exposição de que alguém, ou uma qualquer máquina no outro lado do planeta, saiba mais sobre nós do que nós mesmo. Máquinas, softwares que formam padrões, que nos categorizam e que decidem o que nos mostrar, que nos ensinam o que gostar, e o que fazer a seguir. Chamemos-lhe manipulação, chamemos persuasão, chamemos intrusão. Não importa. Regular isto é quase impossível, é massivo, é global, é provavelmente o futuro de uma inteligência coletiva que se forma através das cada vez mais intricadas redes de informação.

Como pessoa, profissional e professor de comunicação, da comunicação das organizações (ou das relações públicas) ou da comunicação empresarial , da gestão de marcas e da reputação olho para este fenómeno por dois prismas antagónicos:

1. Por um lado, fascina-me a capacidade que as marcas, as empresas têm para cada vez mais interagirem com os seus públicos.  Uma conversa que pode, de facto, levar a uma evolução mútua, a novos caminhos e novas oportunidades para públicos e empresas. O potencial para gerir o relacionamento do cliente de forma personalizada, do conhecimento partir para ações que tragam valor para o cliente e que tornem essa relação lucrativa. Quando bem usado, é inegável este potencial. No entanto, é importante que todos os consumidores tenham a percepção de que quando usam o seu “Cartão Continente” para ter promoções, eles estão, na verdade, a “vender” os seus dados que serão usados para futuras ações. Quem diz o Continente, diz o Facebook, o Google ou qualquer outro site que instale cookies no nosso computador. Nem nos damos ao trabalho de ler o que é que esse cookie faz.

2. O outro ponto de vista é um pouco mais aterrador. A verdade é que não temos uma noção concreta do que é que está a ser gravado, monitorizado. Sabemos apenas que é provável que esteja a acontecer. Hoje mais que ontem e amanhã mais do que hoje. Se para uma pessoa comum isto tem algo de perverso, para as organizações ainda mais. As fugas de informação (as leaks) estão apenas a um “click” de distância, basta uma partilha, uma ação planeada, uma ação impulsiva, um ataque pirata e, pronto, lá está toda a vida da organização sob o escrutínio global dos media, das redes sociais, de nós.

 Quando nem os bilionários estão a salvo, quase ninguém está. Talvez a total privacidade seja algo que nem o dinheiro consegue comprar nos dias de hoje.

vladimir-putin-desktop-hd-wallpapers-hdwallwide-comDo ponto de vista da comunicação estratégica, as fugas de informação – as leaks (das wikileaks, ao football leaks, aos Luxleaks, aos Panama Papers) são um aspeto a ter em consideração como situações de potencial crise que podem afetar a reputação de qualquer organização ou pessoa. O que me parece que falta questionar (o meu sentimento quanto às Leaks é profundamente ambivalente) é como é que estas fugas acontecem, quem beneficiam e qual o objetivo por detrás destes atos.

Vladimir Putin é um dos políticos mais lesados pela notícia dos Panama Papers. Se somarmos a isto a provável ausência da equipa russa de atletismo dos Jogos Olímpicos, a “polémica” situação de doping de Sharapova, a perda da influência na FIFA com a queda de Blatter…Algo parece estar a acontecer.

Já alguém se perguntou quantas personalidades de nacionalidade americana apareceram associadas a este escândalo? Tem alguém verdadeiramente questionado, por exemplo, como é que contratos de futebolistas e transferências privadas aparecem em público? Ou vamos apenas aceitar que é apenas divertido e interessante saber. Será que tudo tem mesmo que ser público? Haverá interesses envolvidos?

É tão revoltante ver bilionários a fugir aos impostos, como deveria ser ainda mais revoltante a existência dos off-shores (se eles existem, quem é que que os usava? a classe média?!). Mais, é ilegal? Imoral é. Como será também importante questionar a imoralidade do nosso próprio mundo em que um jogador de futebol ganha mais que um médico, ou um bombeiro que arrisca a vida para salvar os outros.

Que fique claro que não procuro sequer defender o indefensável. O que pretendo afirmar é que não devemos olhar para estes fenómenos de forma inocente e devemos observar a forma como as diferentes instituições, organizações e personalidades o vão gerir. Recomendo ter um olhar global e atento sobre o que vai acontecendo.

Por último, tenho dificuldade em aceitar, porque tenho lido, que os Panama Papers se tratam do verdadeiro jornalismo de investigação, o agora “data journalism”. Tenho dúvidas. Tenho muitas dúvidas.

 

Imagem: http://www.hdwallwide.com/

 

 

 

Trump para principiantes

A cada vitória de Donald Trump nas eleições primárias americanas, vejo nas redes sociais um coro de partilhas, posts e comentários de incredulidade e até de alguma revolta. “Como é possível?”, perguntam alguns, entre comentários mais jocosos a um candidato que é autor de algumas das frases mais infelizes que ouvi em três décadas e meia de existência. Não as vou proferir, elas andam por aí e é demasiado fácil encontrá-las. Agora ficar surpreendido com o facto de o multimilionário americano estar à frente nas eleições primárias (do lado republicano), isso não estou, não fico e é fácil explicar porquê.

Talvez a única coisa que me surpreenda em Trump é a sua capacidade para ir mais longe do que aquilo que alguma pensei ser possível nos tempos de hoje

O primeiro ponto (1) que é importante focar é simples: os americanos têm uma cultura muito própria e, no geral, não pensam e não sentem as coisas como nós portugueses e até europeus. Depois, está também na altura de abandonarmos o preconceito de que o advento das redes sociais, que a sociedade da informação, que a sociedade “ocidental”, e que todo o conhecimento à nossa disposição nos torna naturalmente mais evoluídos, mais compreensivos, mais conhecedores, mais inteligentes e mais cultos. No mundo perfeito isso seria verdade, num mundo em que cada dia tivesse no mínimo 72 horas para conseguirmos absorver tudo aquilo que acontece à nossa volta. Como isso não é verdade, estamos cada vez mais sensíveis ao sound byte, aos títulos ou headlines, aos primeiros 30 segundos de um vídeo que tem no mínimo três e que não vamos visualizar até ao fim, e claro, à “verdade” dos opinion makers (ou líderes de opinião) que facilmente nos dizem o que devemos pensar sobre determinado assunto (2). Estes tenderão a ser selecionados por nós de acordo com a cor política, o saber falar, o life style ou o estilo de vida que representam, ou outro motivo qualquer mais ou menos óbvio, como a cor clubística.

O somatório destes dois primeiros pontos faz com que estejamos demasiados sensíveis e expostos a canais de comunicação e a uma partilha de informação, baseada em instantes em impulsos comunicacionais básicos, que levam a uma rápida e explosiva interpretação e, por sua vez, a uma simplificada criação de sentido e significado. Se a este ponto adicionarmos o ingrediente que é uma audiência ávida por um certo tipo de mensagens, estão criadas as condições para que as declarações de Trump proliferem. Lá porque nas redes sociais não vemos ninguém a idolatrar Trump (pelo menos com a mesma frequência com que este é gozado ou odiado), não quer dizer que este não tenha imensos e silenciosos apoiantes. Marcelo Rebelo de Sousa não era propriamente acarinhado nas redes sociais e ganhou facilmente as eleições em Portugal. Voltando a Trump, as suas mensagens são simples, claras, objetivas. Goste-se ou não, são fortes. É fácil de perceber, é incisivo e tem audiência.

Trump

O próximo ponto que vou referir é sobre a marca Trump, isto é, a sua persona, o que esta representa para o seu eleitorado. A este nível o que podemos dizer é que há coerência, Trump representa um arquétipo fácil de identificar – uma espécie de self-made man que se tornou milionário e que pensa apenas e só pela sua cabeça. A narrativa é simples.

Contra tudo e contra todos se tiver que ser, Trump apresenta-se como um individualista com toques de narcisismo que só pensa em vencer, que só pensa numa América vencedora que subjuga os seus inimigos. Ganhar, ganhar, ganhar, seja através do medo, da divisão, das armas ou da guerra. Tanto faz. Mas, ganhar.

Um discurso que o americano de orgulho ferido que sente que a América não é a super potência de há duas décadas aparentemente quer ouvir.O americano que quer ter uma arma em casa para se defender, porque faz parte do seu direito. Um americano desempregado que não quer fluxo migratório para o seu país. A narrativa está aí, é horrível, mas existe e é consistente, pelo menos para um nicho suficientemente grande e capaz de colocar Trump a disputar a presidência americana.

Esta narrativa funciona para a personagem de Trump que encarna o seu personagem, o seu arquétipo como ninguém, tornando fácil perceber a sua marca, tornando muito fácil à sua audiência identificar-se com ele. As constantes partilhas dos seus sound bytes ajudam… e de que maneira.

Por último, e em dia de Super Terça-feira (para quem saber o que é:  http://www.publico.pt/mundo/noticia/o-que-e-a-super-tercafeira-1724788), em poucos dias vamos saber se veremos Trump na corrida à presidência americana, mas está na altura de deixarmos de olhar para ele como um ser inocente ou incoerente. Ele sabe o que quer e como quer. Não acredito que tenha chegado onde chegou baseado apenas no ódio e ideais xenófobos (pelo que li tem importantes negócios no Médio Oriente) e também não acredito que ele acredite em tudo o que diz e que caso seja eleito faço tudo o que disse. Acredito sim que se Trump tiver que mentir mente e que a sua comunicação vai continuar a ser dura, voraz, explosiva e polémica – está na génese do sucesso que tem tido. Porém, espero sinceramente que os americanos optem por outra via.

imagem: http://images.performgroup.com/di/library/sporting_news/16/4/trump-donald-080715-getty-ftr_3xisndsnzkbt10wclogb0x9pf.jpg?t=142475031