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Do Zeinal já ninguém se lembra…

Podemos parar? Desculpem podemos parar para pensar? Um dia que seja? Apenas um dia? Só um? Andamos nisto há meses, com a constante promessa de continuar. Andamos nisto há praticamente um ano (ou mais)…e continuamos a alimentar o monstro. Sim, isso mesmo. Nós. Quanto mais atenção lhe damos, mais o legitimamos e mais força damos àqueles que o apoiam. “Falem bem ou mal, mas falem de mim…” Podemos ser, pelo menos um dia, mais portugueses e menos americanos? Ou pelo menos mais do mundo?

Ele não é da minha família, mas vejo-o mais vezes que qualquer um dos meus irmãos.

Eu não jogo futebol com ele, mas sei o que ele diz no balneário sobre as mulheres. Eu não sei quais os meus amigos que abrem a porta do carro à namorada ou namorado, nem sequer se lhes puxam a cadeira para sentarem ou se lhe abrem a porta. Mas, dele eu sei. (Também não era preciso muito para saber, mas na verdade nem me interessa. Não quero saber.) Eu não faço ideia quantas pessoas estiveram no concerto da minha banda preferida, nem na cerimónia do Marcelo, nem tão pouco quantos goeses receberam em êxtase o António Costa. Mas, na cerimónia de tomada de posso dele, eu sei.Será que preciso de saber? Não, porque há coisas que não precisam serem ditas ou mostradas, para terem relevância ou se saberem.

Eu não sei quem são os concorrentes da Casa dos Segredos, tal como não quero saber quais os segredos que ele guarda no seu dourado armário.

Eu não sei quem são a maioria dos assessores dos políticos portugueses, mas os dele eu sei e até sei que um dos assessores se enganou nos números..e na verdade, também sei que vi o Zeinal dizer que não se lembra. Infelizmente, sei que quase já ninguém se lembra.

Eu não sei quem votou nele, eu não sei quem votou no Brexit, eu não sei quem é que dá suporte ao Erdogan, nem tão pouco quem defende Putin. (Por falar nisso, nem sequer faço ideia se o Vladimir Putin é casado ou se tem filhos. Sei que praticou judo e pouco mais – e nem sequer me sinto tentado em ir ver ao google). Mas, sei que o meu mundo, não pode ter sido. O meu mundo, nunca faria aquilo.

Mas, se calhar também o meu mundo não faria uma marcha de mulheres, porque o meu mundo não tem género – Somos Humanos e marchávamos todos juntos.

E se existe a necessidade das mulheres fazerem uma marcha, é porque o mundo dele prevalece sobre o meu mundo. Desse modo, é também o mundo dele que faz com que eu saiba muitas outras coisas sem importância e que faz com que eu esqueça muitas outras importantes. É o mundo dele que se expõe na sombra. Não o vemos, mas está lá.

Eu sei, sem dúvida, que o mais perigoso inimigo é aquele que não se vê. Hoje esse inimigo tem uma face mais visível, mas mais perigosos são os líderes que na sombra e na frieza gerem e controlam a impulsividade e que esperam, esperam… Desses as páginas do Facebook e do Twitter pouco falam e são apenas lembrados e investigados, acima de tudo, por aqueles que são obstinados a procurar a verdade.

 

E por isso, hoje não digo o nome dele e não o vou escrever. Não porque o esqueci, mas porque sei que dar-lhe valor é alimentar os fait-divers. Assim, eu reforço, podemos parar? Podemos ser mais portugueses? Podemos deixar a César o que é de César e o nosso ao que é realmente nosso?

imagem: http://www.freeimages.com/photo/stop-button-1471632

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A prova olímpica da fila de espera do hospital e os brilhantes resultados

Jogos Olímpicos? Medalhas? Nada que se compare ao esforço hercúleo de um jovem de quase 83 anos, com mobilidade reduzida e de poucas falas, na longa espera numa cadeira de rodas para uma consulta de otorrino do Centro Hospitalar S. João. Vá lá que até não está muito calor, não há algas a atrapalhar e as paredes estão pintadas de azul. Falo do meu pai, é claro, que fui acompanhar a uma consulta (a par da minha mãe) de otorrinolaringologia. Curiosamente, a pessoa que se portou melhor foi ele. Quase duas horas impávido e sereno à espera de uma consulta que deveria ter o seu início às 11h20 (sendo que o cliente deve apresentar-se com meia hora de antecedência) e a consulta teve lugar muito perto das 13h00. Querem saber os resultados? Brilhantes. É seguro trouxe uma medalha. No final dir-vos-ei qual.

Na completa certeza de existirem problemas bem mais graves no nosso querido Serviço Nacional de Saúde, admito que há “pequenos” pormenores que fazem alguma espécie e dos quais me apetece falar sobre e dos quais farei um breve retrato cronológico.

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A marcação da consulta

Comecemos pela marcação da consulta: a consulta teve lugar na passada semana, mas deveria ter sido realizada anteriormente. Acontece que o Salgado sénior ainda não tem o dom da ubiquidade e não consegue estar na consulta de neurologia e de otorrinolaringologia praticamente ao mesmo tempo. Duas cartas, duas consultas, o mesmo dia. Começou bem. A segunda foi adiada. Parece-me que isto é algo que os sistemas informáticos poderiam facilmente prever.

A segunda carta chegou com a marcação da data e hora e o aviso para chegar 30 minutos mais cedo. Rápido, direto. Quase parece profissional e organizado, nada parecido com os relatos anteriores de longa espera no mesmo serviço.

A entrada no parque

Chegados ao hospital, comunico na portaria que pretendo entrar porque tenho comigo um paciente com mobilidade reduzida e a resposta foi a evidente “pode entrar, mas não pode estacionar, tem que por o carro lá fora”. Ainda bem que fui acompanhado, senão, desculpem o termo “despejava a encomenda” (que é assim que a pessoa se sente) e deixava lá, até conseguir voltar. Entre voltas e voltas, lá estacionei a viatura a uns 5 a 10 minutos a pé, com duas horas para o parquímetro. Tive alguma sorte por serem as férias escolares das universidades, senão nunca encontraria um lugar próximo – a entrada é quase em frente à Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto. Se eu sofri com isto, seguramente outras pessoas sofrem muito mais. Reforço que à porta do serviço de Otorrinolaringologia tinha seguramente uns bons 10 lugares livres.

A entrada no serviço

Quando transportamos alguém numa cadeira de rodas (nem consigo imaginar para quem as usa) o mundo muda um pouco de figura. Reparámos nos passeios, nas portas, nos degraus, em todo e qualquer obstáculo. Seria de assumir que a entrada no serviço de um hospital estivesse preparada para o efeito. Pois, é isso mesmo, não está. Se subir um ou dois passeios, nem foi demasiado difícil, o facto da cadeira de rodas nem sequer passar na porta teve o seu momento caricato: bato uma vez contra a porta, bato duas, olho lá para dentro e nada acontece. A funcionária da receção do serviço, em vez de ajudar ou manifestar-se de alguma forma, fez de conta que não era nada com ela, até que lhe pedimos autorização para abrir a outra portada. Simpático, não acham? Chegámos minutos antes das 11h00. Tirámos a senha e eu desapareci por uns bons 20 minutos à procura de estacionamento.

A sala de espera

Feito o aquecimento, estávamos agora os 3 preparadíssimos para a prova olímpica da espera. Ponto a favor: a cor azul da sala, não estava muita gente e tudo parecia calmo. Demasiado calmo. Qual nau parada no meio de um oceano sem corrente. Morrer à fome não morreríamos, já que a máquina de vending estava estrategicamente colocada à entrada do serviço, acompanhada de alguns snacks saudáveis, cheios de sal e açúcar. Nunca me debrucei muito sobre isto, mas há uma certa ironia na “imensa” variedade de produtos que conseguimos comprar nestes lugares. A televisão seguia sem som, ao ritmo das praias olímpicas e o senhor Salgado continuava assim estático parado à espera. O ar condicionado continuava feroz a arrefecer a sala, ou simplesmente a ventilar a frieza da funcionário da receção.

Aliás, a frieza era tanta que nem me consigo recordar da sua cara. Recordo a voz, mecânica, seca, fria. Estou certo de que um robot cumpriria melhor este serviço, se é para perdermos a humanidade, as emoções e a simpatia, então prefiro máquinas – pelo menos podem ser programadas para nos tratarem bem.

Passado uma hora, a par da minha mãe inicio a típica conversa da incompetência, em tom alto o suficiente para que a funcionária e os outros pacientes a ouçam. Marca consultas tem lógica, se o paciente for atendido a horas, se não vai ser atendido a horas, deve ser avisado, ou por telefone, ou por SMS ou até ao vivo se o cliente já lá estiver. Mais do que um direito, para mim é um dever ser informado do tempo de espera médio. Se o médico não está lá, devemos ser informados. É simples, ficamos preparados e até agradecemos. Sem informação e com indiferença ficamos revoltados. Levantei-me e vi a fantástica caixa de sugestões e reclamações. Está lá a caixa, está lá a informação, mas o formulário não. À medida que alguns pacientes são atendidos, recordo que até nos autocarros e nos metros existem prioridades nas quais encontramos grávidas, idosos, pessoas portadoras de algum tipo de deficiência…mas, neste serviço não. Disso não há.

Entre um encolher de ombros de resignação, o Salgado sénior mantinha-se firme em cumprir o seu desígnio. A sala esvaziou continuamos lá, voltou a encher, voltou a esvaziar. Se fosse um jogo de futebol. o Salgado sénior terminava o jogo com a folha irrepreensível e eu seria o jogador que se arriscava a ir para rua por chamar incompetente ao árbitro por não ter assinalado o merecido penálti. Chegados às 12h45, insisto com a minha mãe para falar com a robótica funcionário, já que o médico em anterior aventura, se havia manifestado surpreendido por terem deixado uma pessoa daquela idade tanto tempo à espera.

Senhor doutor uma palavra para si: QUALQUER PESSOA MERECE SER ATENDIDA A HORAS, MERECE SER AVISADA, SER BEM TRATADA e TER INFORMAÇÂO, ainda que aceite que umas merecem um carinho mais especial. Dignidade.

A minha mãe dirige-se à funcionária insistindo que estávamos à espera há demasiado tempo. Esta responde algo parecido com  um “vou então ver”.  Milagre. Dois minutos depois fomos atendidos. A consulta durou pouco mais de 2 minutos. Viram a corda vocal e disseram que o problema é neurológico, logo nada mais haverá a fazer naquela especialidade.

A medalha

Quanto à merecida medalha, o meu pai enverga-a desde então: tosse, muita expetoração e uma potencial infeção respiratória, provavelmente devido à longa exposição ao frio do ar condicionado numa sala tão pequena ou pelo contacto com algum paciente no hospital.

Como disse anteriormente, há seguramente problemas mais graves no nosso SNS, no entanto, alguns poderiam ser evitados, através melhor comunicação, melhor organização e mais informação – processos simples de implementar e de pessoas que não se importam de ser humanas.

 

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Já nada é segredo: as leaks, o big data e a reputação

Nada mais é segredo, ou quase nada. Segredo (e não vou usar o termo privado), em muito pouco tempo, passará apenas a ser aquilo que guardamos para nós, até que um vírus ou um outro qualquer sistema de data mining aceda ao nosso cérebro e faça um simples rastreio do que pensamos e do que sentimos em qualquer momento do nosso dia. Conseguem imaginar a nuvem de palavras mentais que produzimos a cada minuto? Imaginem agora uma “backdoor” uma porta dos fundos para poder entrar no território mais inóspito do nosso ser. Estão preparados?

Quando tudo pode ser convertido em código, em zeros e uns, em que tudo aquilo que fazemos passa a ser monitorizado por alguém, nada mais é igual. A esfera pública de que fala Habermas é cada vez mais um enorme ciberespaço povoado pela partilha e  de conteúdos pessoais que estão algures a ser monitorizados. Estar ligado, estar online, significa aceitar a exposição de que alguém, ou uma qualquer máquina no outro lado do planeta, saiba mais sobre nós do que nós mesmo. Máquinas, softwares que formam padrões, que nos categorizam e que decidem o que nos mostrar, que nos ensinam o que gostar, e o que fazer a seguir. Chamemos-lhe manipulação, chamemos persuasão, chamemos intrusão. Não importa. Regular isto é quase impossível, é massivo, é global, é provavelmente o futuro de uma inteligência coletiva que se forma através das cada vez mais intricadas redes de informação.

Como pessoa, profissional e professor de comunicação, da comunicação das organizações (ou das relações públicas) ou da comunicação empresarial , da gestão de marcas e da reputação olho para este fenómeno por dois prismas antagónicos:

1. Por um lado, fascina-me a capacidade que as marcas, as empresas têm para cada vez mais interagirem com os seus públicos.  Uma conversa que pode, de facto, levar a uma evolução mútua, a novos caminhos e novas oportunidades para públicos e empresas. O potencial para gerir o relacionamento do cliente de forma personalizada, do conhecimento partir para ações que tragam valor para o cliente e que tornem essa relação lucrativa. Quando bem usado, é inegável este potencial. No entanto, é importante que todos os consumidores tenham a percepção de que quando usam o seu “Cartão Continente” para ter promoções, eles estão, na verdade, a “vender” os seus dados que serão usados para futuras ações. Quem diz o Continente, diz o Facebook, o Google ou qualquer outro site que instale cookies no nosso computador. Nem nos damos ao trabalho de ler o que é que esse cookie faz.

2. O outro ponto de vista é um pouco mais aterrador. A verdade é que não temos uma noção concreta do que é que está a ser gravado, monitorizado. Sabemos apenas que é provável que esteja a acontecer. Hoje mais que ontem e amanhã mais do que hoje. Se para uma pessoa comum isto tem algo de perverso, para as organizações ainda mais. As fugas de informação (as leaks) estão apenas a um “click” de distância, basta uma partilha, uma ação planeada, uma ação impulsiva, um ataque pirata e, pronto, lá está toda a vida da organização sob o escrutínio global dos media, das redes sociais, de nós.

 Quando nem os bilionários estão a salvo, quase ninguém está. Talvez a total privacidade seja algo que nem o dinheiro consegue comprar nos dias de hoje.

vladimir-putin-desktop-hd-wallpapers-hdwallwide-comDo ponto de vista da comunicação estratégica, as fugas de informação – as leaks (das wikileaks, ao football leaks, aos Luxleaks, aos Panama Papers) são um aspeto a ter em consideração como situações de potencial crise que podem afetar a reputação de qualquer organização ou pessoa. O que me parece que falta questionar (o meu sentimento quanto às Leaks é profundamente ambivalente) é como é que estas fugas acontecem, quem beneficiam e qual o objetivo por detrás destes atos.

Vladimir Putin é um dos políticos mais lesados pela notícia dos Panama Papers. Se somarmos a isto a provável ausência da equipa russa de atletismo dos Jogos Olímpicos, a “polémica” situação de doping de Sharapova, a perda da influência na FIFA com a queda de Blatter…Algo parece estar a acontecer.

Já alguém se perguntou quantas personalidades de nacionalidade americana apareceram associadas a este escândalo? Tem alguém verdadeiramente questionado, por exemplo, como é que contratos de futebolistas e transferências privadas aparecem em público? Ou vamos apenas aceitar que é apenas divertido e interessante saber. Será que tudo tem mesmo que ser público? Haverá interesses envolvidos?

É tão revoltante ver bilionários a fugir aos impostos, como deveria ser ainda mais revoltante a existência dos off-shores (se eles existem, quem é que que os usava? a classe média?!). Mais, é ilegal? Imoral é. Como será também importante questionar a imoralidade do nosso próprio mundo em que um jogador de futebol ganha mais que um médico, ou um bombeiro que arrisca a vida para salvar os outros.

Que fique claro que não procuro sequer defender o indefensável. O que pretendo afirmar é que não devemos olhar para estes fenómenos de forma inocente e devemos observar a forma como as diferentes instituições, organizações e personalidades o vão gerir. Recomendo ter um olhar global e atento sobre o que vai acontecendo.

Por último, tenho dificuldade em aceitar, porque tenho lido, que os Panama Papers se tratam do verdadeiro jornalismo de investigação, o agora “data journalism”. Tenho dúvidas. Tenho muitas dúvidas.

 

Imagem: http://www.hdwallwide.com/

 

 

 

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Trump para principiantes

A cada vitória de Donald Trump nas eleições primárias americanas, vejo nas redes sociais um coro de partilhas, posts e comentários de incredulidade e até de alguma revolta. “Como é possível?”, perguntam alguns, entre comentários mais jocosos a um candidato que é autor de algumas das frases mais infelizes que ouvi em três décadas e meia de existência. Não as vou proferir, elas andam por aí e é demasiado fácil encontrá-las. Agora ficar surpreendido com o facto de o multimilionário americano estar à frente nas eleições primárias (do lado republicano), isso não estou, não fico e é fácil explicar porquê.

Talvez a única coisa que me surpreenda em Trump é a sua capacidade para ir mais longe do que aquilo que alguma pensei ser possível nos tempos de hoje

O primeiro ponto (1) que é importante focar é simples: os americanos têm uma cultura muito própria e, no geral, não pensam e não sentem as coisas como nós portugueses e até europeus. Depois, está também na altura de abandonarmos o preconceito de que o advento das redes sociais, que a sociedade da informação, que a sociedade “ocidental”, e que todo o conhecimento à nossa disposição nos torna naturalmente mais evoluídos, mais compreensivos, mais conhecedores, mais inteligentes e mais cultos. No mundo perfeito isso seria verdade, num mundo em que cada dia tivesse no mínimo 72 horas para conseguirmos absorver tudo aquilo que acontece à nossa volta. Como isso não é verdade, estamos cada vez mais sensíveis ao sound byte, aos títulos ou headlines, aos primeiros 30 segundos de um vídeo que tem no mínimo três e que não vamos visualizar até ao fim, e claro, à “verdade” dos opinion makers (ou líderes de opinião) que facilmente nos dizem o que devemos pensar sobre determinado assunto (2). Estes tenderão a ser selecionados por nós de acordo com a cor política, o saber falar, o life style ou o estilo de vida que representam, ou outro motivo qualquer mais ou menos óbvio, como a cor clubística.

O somatório destes dois primeiros pontos faz com que estejamos demasiados sensíveis e expostos a canais de comunicação e a uma partilha de informação, baseada em instantes em impulsos comunicacionais básicos, que levam a uma rápida e explosiva interpretação e, por sua vez, a uma simplificada criação de sentido e significado. Se a este ponto adicionarmos o ingrediente que é uma audiência ávida por um certo tipo de mensagens, estão criadas as condições para que as declarações de Trump proliferem. Lá porque nas redes sociais não vemos ninguém a idolatrar Trump (pelo menos com a mesma frequência com que este é gozado ou odiado), não quer dizer que este não tenha imensos e silenciosos apoiantes. Marcelo Rebelo de Sousa não era propriamente acarinhado nas redes sociais e ganhou facilmente as eleições em Portugal. Voltando a Trump, as suas mensagens são simples, claras, objetivas. Goste-se ou não, são fortes. É fácil de perceber, é incisivo e tem audiência.

Trump

O próximo ponto que vou referir é sobre a marca Trump, isto é, a sua persona, o que esta representa para o seu eleitorado. A este nível o que podemos dizer é que há coerência, Trump representa um arquétipo fácil de identificar – uma espécie de self-made man que se tornou milionário e que pensa apenas e só pela sua cabeça. A narrativa é simples.

Contra tudo e contra todos se tiver que ser, Trump apresenta-se como um individualista com toques de narcisismo que só pensa em vencer, que só pensa numa América vencedora que subjuga os seus inimigos. Ganhar, ganhar, ganhar, seja através do medo, da divisão, das armas ou da guerra. Tanto faz. Mas, ganhar.

Um discurso que o americano de orgulho ferido que sente que a América não é a super potência de há duas décadas aparentemente quer ouvir.O americano que quer ter uma arma em casa para se defender, porque faz parte do seu direito. Um americano desempregado que não quer fluxo migratório para o seu país. A narrativa está aí, é horrível, mas existe e é consistente, pelo menos para um nicho suficientemente grande e capaz de colocar Trump a disputar a presidência americana.

Esta narrativa funciona para a personagem de Trump que encarna o seu personagem, o seu arquétipo como ninguém, tornando fácil perceber a sua marca, tornando muito fácil à sua audiência identificar-se com ele. As constantes partilhas dos seus sound bytes ajudam… e de que maneira.

Por último, e em dia de Super Terça-feira (para quem saber o que é:  http://www.publico.pt/mundo/noticia/o-que-e-a-super-tercafeira-1724788), em poucos dias vamos saber se veremos Trump na corrida à presidência americana, mas está na altura de deixarmos de olhar para ele como um ser inocente ou incoerente. Ele sabe o que quer e como quer. Não acredito que tenha chegado onde chegou baseado apenas no ódio e ideais xenófobos (pelo que li tem importantes negócios no Médio Oriente) e também não acredito que ele acredite em tudo o que diz e que caso seja eleito faço tudo o que disse. Acredito sim que se Trump tiver que mentir mente e que a sua comunicação vai continuar a ser dura, voraz, explosiva e polémica – está na génese do sucesso que tem tido. Porém, espero sinceramente que os americanos optem por outra via.

imagem: http://images.performgroup.com/di/library/sporting_news/16/4/trump-donald-080715-getty-ftr_3xisndsnzkbt10wclogb0x9pf.jpg?t=142475031

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Julen Lopetegui ao ataque? A resposta.

Julen Lopetegui ao ataque? O técnico espanhol concedeu uma entrevista ao diário desportivo As.com (deixarei o link abaixo). A sua entrevista é naturalmente um primeiro ato de gestão de impressões, isto é, da sua imagem pessoal desde que abandonou o cargo de treinador do FC Porto. O conteúdo é forte.

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Julen Lopetegui ex-treinador do FC Porto

Uma breve leitura dos Órgãos de Comunicação Social em Portugal poderá levar-nos a uma interpretação precipitada da postura do treinador espanhol: “em vez de celebrarmos queriam saber se jogava um miúdo da formação” (Record) ou “tínhamos necessidades mais importantes que Imbula”(Maisfutebol). Esta simples leitura relembra-me um Lopetegui zangado com o mundo, chateado com as mais recentes respostas de Jorge Nuno Pinto da Costa.

O meu olhar, de quem vive a comunicação, diz-me que Lopetegui, mais do que atacar, quis-se defender e promover a sua imagem no mercado que mais lhe interessa: o espanhol. Em Portugal, e em especial, os portistas (nos quais assumidamente me incluo) acharão que está errado e que os seus argumentos são pouco convincentes. Lamento informar, mas o FC Porto, os adeptos portugueses, a comunicação social nacional, não são (e provavelmente nunca forma) o público-alvo do treinador basco. Agora, mais do que nunca, pouco lhe interessará o que nós pensamos ou deixamos de pensar.

Para mim, a novidade é o tom cordial, sincero, com algumas frases elogiosas para com o presidente do FC Porto, estrutura do clube e adeptos. Exigência é sempre um bom termo. O Lopetegui, sentado em frente à câmara do AsTV, nunca esteve em Portugal. Eu nunca o vi. Vi outra personagem: irascível, impulsivo, com dificuldade em defender-se, a sentir-se incompreendido (quando não nos esforçamos para perceber a cultura de um outro país, talvez seja isto que acontece). Este facto demonstra falta de preparação para um desafio e pressão, um pouco do problema que Vítor Pereira, noutros moldes, também enfrentou.

Lopetegui está calmo (terá sido aconselhado a isso) diz o que pensa, mas nunca é agressivo. Ao contrário da sua postura no banco de suplentes, que demonstra instabilidade constante, impulsividade e, (sou eu a adivinhar) um excesso de reforço negativo. Aliás, acrescento: Lopetegui é mesmo capaz de sorrir. Uma surpresa. Ele sabe que falhou, está a gerir os danos e a responder ao “convite” que foi feito pelas declarações de Pinto da Costa, durante esta semana.

Os argumentos são válidos? Quanto às saídas dos titulares sim (Jackson, Danilo, Alex Sandro…) Pois, mas Lopetegui aproveita e acrescenta o nome de Quaresma. Conveniente. Se Pinto da Costa está mal aconselhado? Provavelmente, se não (ou caso contrário) não o teria contratado. Nem tão pouco ao brilhante Adrián Lopéz. Quanto a Imbula, não interessa se é um Ferrari ou não, importa é que a globalidade dos jogadores evolua, que existam processos e métodos de treino. A contratação de jogadores não resolve o que o treinador não faz. Em síntese, creio que alguns argumentos são válidos, sim, mas que há toda uma incoerência de comportamentos, atitudes, postura, e incapacidade de reconhecer erros que Lopetegui, agora estrategicamente, serenamente omite.

Para o seu futuro, a entrevista é boa  e tem a peculiaridade de mostrar um treinador que no meu mundo não existe. Para FC Porto, as respostas serão, quiçá, incómodas, mas a imagem de Lopetegui junto dos adeptos, estrutura azul e branca e comunicação social, está tão gasta, que a forma como está a ser apresentada, acaba por ser conveniente para que nunca mais nos lembremos dele.

P.S. Recomendo a visualização da entrevista (pelo menos uns minutos para observar o tom, calma e postura):

http://futbol.as.com/futbol/2016/01/28/internacional/1454013517_970820.html

imagem: oonze.pt

#lopetegui #fcporto #comunicação #reputação