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O dia em que levantei dinheiro num icebergue

Já levantaram dinheiro numa câmara frigorífica? E num icebergue? Não? Imaginem o seguinte cenário: passam alguns minutos das 22h00 e acabaram de chegar ao Porto (ou a outro sítio qualquer) para tomar um café, ou quem sabe beber uma cerveja e reparam que precisam de levantar dinheiro. Até esse instante, em que apontam o cartão multibanco para abrir o espaço interior do banco, que é reservado às caixas multibanco, nada de mais acontece, aliás a temperatura está boa, recomenda-se, ainda é Verão.

Luz verde, a porta abre-se, e num segundo viajei de Portugal ao pólo Norte, fiquei mais gelado do que em 2004 quando a Grécia marcou o golo a Portugal. Com um casaco a servir de cachecol, em que o ar condicionado se transformou no abominável homem das neves, apressei-me a digitar o código antes que as articulações estalassem, ou que aparecessem os figurantes da Branca de Neve no Gelo. Resumindo, e respondendo à minha pergunta, eu já levantei dinheiro numa câmara frigorífica, como também já o terei feito numa verdadeira sauna finlandesa. iceberg-1381594.jpg

Como tenho a noção de que não foi a minha primeira vez, nem tão pouco a vossa, pondero sobre os motivos e o cenário é tudo menos bom. A situação menos grave é, a meu ver, o esquecimento: pode acontecer a todos e umas vezes não são vezes, porém não gostaria de ser eu a pagar o excesso na conta da luz do banco. Se não estava no máximo, estava quase e a noite ainda era uma criança. Seja como for, o cliente não gosta , o ambiente também não (quem paga a conta nunca irá saber, a não ser que leia este texto).

Mais grave é se a situação é intencional, por exemplo, para evitar que pessoas sem-abrigo se refugiem ou abriguem nesse espaço. Mesmo admitindo que possa não ser esta a intenção, o simples facto de me ter ocorrido criou em mim um tremendo desconforto e um claro sinal de que algo muito errado se está a passar. Se for o caso e o motivo ser o que mencionei, então trata-se de algo muito grave e desumano.

Quando usamos o ar condicionado da mesma forma que usamos repelente para insetos…(deixo ao vosso critério terminar este pensamento).

Seguramente que existem outras formas de contribuir para o evitar desta situação sem lesar o ambiente, a sociedade e o cliente. Quantas refeições seriam possíveis de oferecer, considerando apenas o valor do ar condicionado ligado durante toda a noite? Quanto custa isso? Já fizeram as contas? Quanto deste dinheiro gasto é que poderia ser dado a iniciativas de proteção ambiental ou até mesmo aos bombeiros?

Os bancos, tal como todos nós, têm o direito de zelar pela sua propriedade privada, como também têm o dever de zelar pela segurança do cliente, porém, se nenhuma destas situações for possível, desliguem as máquina e desativem o espaço à noite. É simples. Não façamos deste comportamento um padrão. Acrescento que minutos antes tentei efetuar o levantamento num espaço semelhante na Caixa Geral de Depósitos (mesmo ao lado) e a temperatura era a ambiente.

Diz-se  que uma imagem vale mais do mil palavras, pois uma experiência vale muito mais que mil imagens.

Importa sim perceber que olhar para os problemas sociais de forma isolada, procurando apenas evitá-los, é perder uma oportunidade para mudar, começando pelas pequenas coisas. É assim que se cria uma reputação, dia a dia, gesto a gesto, e é também nos pormenores que começamos a perdê-la, basta apenas uma má experiência.

PS – não tenho nada contra o uso do ar condicionado de forma apropriada, é apenas uma coincidência ter falado sobre isso no post anterior.

 

imagem: freeimages.com

 

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A prova olímpica da fila de espera do hospital e os brilhantes resultados

Jogos Olímpicos? Medalhas? Nada que se compare ao esforço hercúleo de um jovem de quase 83 anos, com mobilidade reduzida e de poucas falas, na longa espera numa cadeira de rodas para uma consulta de otorrino do Centro Hospitalar S. João. Vá lá que até não está muito calor, não há algas a atrapalhar e as paredes estão pintadas de azul. Falo do meu pai, é claro, que fui acompanhar a uma consulta (a par da minha mãe) de otorrinolaringologia. Curiosamente, a pessoa que se portou melhor foi ele. Quase duas horas impávido e sereno à espera de uma consulta que deveria ter o seu início às 11h20 (sendo que o cliente deve apresentar-se com meia hora de antecedência) e a consulta teve lugar muito perto das 13h00. Querem saber os resultados? Brilhantes. É seguro trouxe uma medalha. No final dir-vos-ei qual.

Na completa certeza de existirem problemas bem mais graves no nosso querido Serviço Nacional de Saúde, admito que há “pequenos” pormenores que fazem alguma espécie e dos quais me apetece falar sobre e dos quais farei um breve retrato cronológico.

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A marcação da consulta

Comecemos pela marcação da consulta: a consulta teve lugar na passada semana, mas deveria ter sido realizada anteriormente. Acontece que o Salgado sénior ainda não tem o dom da ubiquidade e não consegue estar na consulta de neurologia e de otorrinolaringologia praticamente ao mesmo tempo. Duas cartas, duas consultas, o mesmo dia. Começou bem. A segunda foi adiada. Parece-me que isto é algo que os sistemas informáticos poderiam facilmente prever.

A segunda carta chegou com a marcação da data e hora e o aviso para chegar 30 minutos mais cedo. Rápido, direto. Quase parece profissional e organizado, nada parecido com os relatos anteriores de longa espera no mesmo serviço.

A entrada no parque

Chegados ao hospital, comunico na portaria que pretendo entrar porque tenho comigo um paciente com mobilidade reduzida e a resposta foi a evidente “pode entrar, mas não pode estacionar, tem que por o carro lá fora”. Ainda bem que fui acompanhado, senão, desculpem o termo “despejava a encomenda” (que é assim que a pessoa se sente) e deixava lá, até conseguir voltar. Entre voltas e voltas, lá estacionei a viatura a uns 5 a 10 minutos a pé, com duas horas para o parquímetro. Tive alguma sorte por serem as férias escolares das universidades, senão nunca encontraria um lugar próximo – a entrada é quase em frente à Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto. Se eu sofri com isto, seguramente outras pessoas sofrem muito mais. Reforço que à porta do serviço de Otorrinolaringologia tinha seguramente uns bons 10 lugares livres.

A entrada no serviço

Quando transportamos alguém numa cadeira de rodas (nem consigo imaginar para quem as usa) o mundo muda um pouco de figura. Reparámos nos passeios, nas portas, nos degraus, em todo e qualquer obstáculo. Seria de assumir que a entrada no serviço de um hospital estivesse preparada para o efeito. Pois, é isso mesmo, não está. Se subir um ou dois passeios, nem foi demasiado difícil, o facto da cadeira de rodas nem sequer passar na porta teve o seu momento caricato: bato uma vez contra a porta, bato duas, olho lá para dentro e nada acontece. A funcionária da receção do serviço, em vez de ajudar ou manifestar-se de alguma forma, fez de conta que não era nada com ela, até que lhe pedimos autorização para abrir a outra portada. Simpático, não acham? Chegámos minutos antes das 11h00. Tirámos a senha e eu desapareci por uns bons 20 minutos à procura de estacionamento.

A sala de espera

Feito o aquecimento, estávamos agora os 3 preparadíssimos para a prova olímpica da espera. Ponto a favor: a cor azul da sala, não estava muita gente e tudo parecia calmo. Demasiado calmo. Qual nau parada no meio de um oceano sem corrente. Morrer à fome não morreríamos, já que a máquina de vending estava estrategicamente colocada à entrada do serviço, acompanhada de alguns snacks saudáveis, cheios de sal e açúcar. Nunca me debrucei muito sobre isto, mas há uma certa ironia na “imensa” variedade de produtos que conseguimos comprar nestes lugares. A televisão seguia sem som, ao ritmo das praias olímpicas e o senhor Salgado continuava assim estático parado à espera. O ar condicionado continuava feroz a arrefecer a sala, ou simplesmente a ventilar a frieza da funcionário da receção.

Aliás, a frieza era tanta que nem me consigo recordar da sua cara. Recordo a voz, mecânica, seca, fria. Estou certo de que um robot cumpriria melhor este serviço, se é para perdermos a humanidade, as emoções e a simpatia, então prefiro máquinas – pelo menos podem ser programadas para nos tratarem bem.

Passado uma hora, a par da minha mãe inicio a típica conversa da incompetência, em tom alto o suficiente para que a funcionária e os outros pacientes a ouçam. Marca consultas tem lógica, se o paciente for atendido a horas, se não vai ser atendido a horas, deve ser avisado, ou por telefone, ou por SMS ou até ao vivo se o cliente já lá estiver. Mais do que um direito, para mim é um dever ser informado do tempo de espera médio. Se o médico não está lá, devemos ser informados. É simples, ficamos preparados e até agradecemos. Sem informação e com indiferença ficamos revoltados. Levantei-me e vi a fantástica caixa de sugestões e reclamações. Está lá a caixa, está lá a informação, mas o formulário não. À medida que alguns pacientes são atendidos, recordo que até nos autocarros e nos metros existem prioridades nas quais encontramos grávidas, idosos, pessoas portadoras de algum tipo de deficiência…mas, neste serviço não. Disso não há.

Entre um encolher de ombros de resignação, o Salgado sénior mantinha-se firme em cumprir o seu desígnio. A sala esvaziou continuamos lá, voltou a encher, voltou a esvaziar. Se fosse um jogo de futebol. o Salgado sénior terminava o jogo com a folha irrepreensível e eu seria o jogador que se arriscava a ir para rua por chamar incompetente ao árbitro por não ter assinalado o merecido penálti. Chegados às 12h45, insisto com a minha mãe para falar com a robótica funcionário, já que o médico em anterior aventura, se havia manifestado surpreendido por terem deixado uma pessoa daquela idade tanto tempo à espera.

Senhor doutor uma palavra para si: QUALQUER PESSOA MERECE SER ATENDIDA A HORAS, MERECE SER AVISADA, SER BEM TRATADA e TER INFORMAÇÂO, ainda que aceite que umas merecem um carinho mais especial. Dignidade.

A minha mãe dirige-se à funcionária insistindo que estávamos à espera há demasiado tempo. Esta responde algo parecido com  um “vou então ver”.  Milagre. Dois minutos depois fomos atendidos. A consulta durou pouco mais de 2 minutos. Viram a corda vocal e disseram que o problema é neurológico, logo nada mais haverá a fazer naquela especialidade.

A medalha

Quanto à merecida medalha, o meu pai enverga-a desde então: tosse, muita expetoração e uma potencial infeção respiratória, provavelmente devido à longa exposição ao frio do ar condicionado numa sala tão pequena ou pelo contacto com algum paciente no hospital.

Como disse anteriormente, há seguramente problemas mais graves no nosso SNS, no entanto, alguns poderiam ser evitados, através melhor comunicação, melhor organização e mais informação – processos simples de implementar e de pessoas que não se importam de ser humanas.

 

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Ser inglês? Ser europeu? Ser humano.

Num momento em que a Europa discute o Brexit – ou a insustentável saída do Reino Unido da União Europeia – e as suas implicações sociais e económicas, manifestamos o nosso desagrado, a nossa incompreensão com a impensável decisão, com as limitações colocadas às gerações futuras, com o virar as costas aos povos irmãos, com aquele que será o princípio do fim de uma Europa que não é, mas que viria a ser.

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Gritamos silenciosamente “foram ideais xenófobos, promessas vãs e mentirosas que estiveram na base da decisão de voto de milhões de pessoas” de uma nação que no nosso ideal colocamos entre as mais desenvolvidas do planeta. Questionamos “como é possível?”, mas será que o feed de notícias e posts é verdadeiramente ilustrativo do que se passa um pouco por toda a Europa e no mundo? Não. Repito, não.

Há um mundo para lá da internet e, infelizmente, também há um mundo em que somos mais Charlie e Paris e menos Orlando ou Istambul.

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Recentes atentados no aeroporto Ataturk, em Istambul.

A silenciosa voz que urde, que ganha força, que se manifesta e que não vai necessariamente para as redes sociais dizer o que pensa. Ela cresce na mente dos fragilizados, esquecidos, revoltados, injustiçados, ela alimenta-se da frustração, da degradação da vida, da perda de valor, da perda de influência, da insatisfação dos sonhos que não se concretizaram e, claro, também do fanatismo, seja ele religioso ou de outra espécie.

Essa voz quer culpados. Para alguns a culpa será da Europa, para outros será o Schauble, a Merkl e o FMI, para outros a corrupção instalada nas estruturas político-financeiras, e para mais alguns a culpa é de certeza dos imigrantes, do produto estrangeiro a preço mais baixo, da internet e das novas gerações.

Na incapacidade de compreender o admirável mundo novo, as esquecidas e maltratadas gerações que não se adaptaram, que se viram ultrapassadas, que mergulharam no desemprego ou na crescente desvalorização profissional, gritam nestes referendos “antes nós que os outros”.

O Brexit, como ato simbólico de uma forma de ver o mundo, já estava aí. David Cameron “esqueceu-se” que a democracia também pode dar voz à xenofobia, ao extremismo e ao racismo. Uma irresponsabilidade dele e dos que com ele decidiram, mas também de sociedade que se recusa a ver o que está para vir e de uma Europa, onde aquilo que se mais se discute é o Euro, o Tratado Orçamental, o défice, os juros e o cumprir das metas financeiras. (Admito, claro, que outras coisas importantes se discutam, mas isso não chega até nós cidadãos).

Incomoda-me o Brexit, não apenas por ser europeu, nem tão pouco como ser português. Incomoda-me o Brexit porque antes disso tudo sou humano.

E por ser humano: sou português, sou americano, sou europeu, sou  asiático, sou africano, sou do mundo. Enquanto insistirmos em esquecer isto, a voz de que falei continuará a ganhar ímpeto e apoiantes, mundo ficará mais dividido, as teorias macroeconómicas vão continuar a esquecer a “microeconomia do indivíduo” e as estruturas políticas continuarão a governar números, em vez de pessoas.

Espero que ao lerem este texto vocês (em caso de esquecimento) também se lembram que o são.

P.S. -Hoje serei apenas um bocadinho menos polaco, porque as raízes também são importantes.

 

imagem1: http://www.newstatesman.com/sites/default/files/styles/nodeimage/public/blogs_2016/04/brexit.jpg?itok=eXeHpKyF

imagem2: https://timedotcom.files.wordpress.com/2016/06/turkey-airport-attack-istanbul.jpg?quality=75&strip=color&w=1024

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Conseguirá Mourinho ser “sir”?

Era mesmo verdade. Ao fim de meses e meses a fazer de conta, José Mourinho e Manchester United dão finalmente o nó. A questão que se coloca é: conseguirá Mourinho vencer e ser “sir”? Esta é a prova de fogo, onde ser “Special” não é suficiente.  Este é um desafio em que a sede de vencer se confunde com a extrema capacidade de ser superior ao próprio futebol, ao tempo, ao desgaste. É o momento de aprender a saber ganhar para se elevar acima dos demais. O exemplo está lá, e está vivo: Alex Ferguson.

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Se vencer (quase a todo o custo) não fosse algo tão impregnado no ADN de Mourinho, quase apetece dizer que ser despedido do Chelsea foi um ato calculado, uma “planeada” ironia do destino, uma formalidade, uma espécie de gestão de carreira que os Deuses do Futebol se encarregaram de resolver.

Para nós portugueses, para a nossa imprensa, não é o Quinto Império, mas é quase. Com Mourinho (não interessa como, meio a zero serve perfeitamente), nós portugueses ganhamos, não é ele, nem a equipa dele que ganha: somos nós todos, todos juntos no mesmo barco, os que o veneram, os que o adoram e também aqueles que o detestam, que não o suportam. Que se lixe. É português. É português. E é o melhor do mundo, o melhor do MUNDO, o MELHOR DO MUNDO. E está no MELHOR clube do mundo. O Real Madrid já foi o melhor do mundo, com os melhores do mundo, mas agora já não é.  O Manchester sempre foi maior, é o titã dos clubes. E depois da lenda Ferguson – chega o predestinado Mourinho. Quem diz predestinado, pode dizer o detestado, o insolente, o atrevido, o defensivo, o calculista,  para quem ganhar é sempre o mais importante. A reputação é sempre algo que nos persegue. Mourinho fez por isso.

Se existisse um Darth Vader no futebol, Mourinho seria o “perfect match”.

A verdade é que, desde a saída de Alex Ferguson,  o Manchester tentou fugir à tentação, ao destino, às evidências – Mourinho não era “Sir” suficiente para o United era o argumento. Num tom quase shakespeariano, quase trágico, o Teatro dos Sonhos (assim é chamado o Old Trafford, estádio do United) foi-se apagando, um fade out, uma hibernação de um gigante. Por outro lado,  a carreira de Mourinho também sofreu, ainda que com mais uma vitória na Premier League, José parecia amargo, o desgosto de ter sido desconsiderado (afinal as partilhas de Barca Velha com Ferguson não foram suficientes, nem tão pouco as vitórias). A primeira época de verdadeiro insucesso estava ao virar da página.

Ser o “happy one” foi uma alegoria das perversas, não encaixaria nunca no arquétipo Mourinho. É uma história mal contada. Voltar ao Chelsea soou a  vingança: é diferente dizer “venho para ganhar” do que “venho para ser feliz”…ou voltei porque “não me quiseram no local para onde eu queria ir” (Manchester). No Chelsea, em ano atípico, e sem guerras para travar, a felicidade trouxe o comodismo, a acomodação e a certeza de que não podemos fugir do nosso ADN. Mourinho não foi Mourinho, foi despedido, quis voltar de imediato e não conseguiu. Teve que esperar, respeitou o insucesso de Van Gaal e esperou, esperou, esperou. Foi nesse contexto de inevitabilidade que o Manchester United, também rejeitado por Guardiola, se rendeu a José.

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O Manchester United obriga Mourinho a ter outra postura. Mourinho é “Special”, mas agora tem que aprender a ser “Sir” (coisa que lhe faltou há muito muito tempo, quando substituiu Manuel José em Leiria).

Mourinho como todos nós aprende, e muito. Para ser considerado melhor do mundo não chegou ganhar. Foi preciso repetir vezes sem conta que era o melhor (não foi fácil, mas a comunicação resultou), porém também é relevante referir que só se chega ao topo aprendendo com os melhores e tendo talento. Não se chega ao topo de outra forma e, acima de tudo, não se continua lá, sem essa vontade, sem essa ambição de ser mais.

Após a retumbante vitória do Leicester, a Premier League prepara-se para a sua época mais louca: os muitos milhões que chegam aos clubes ingleses, através da venda dos direitos de transmissão televisiva, levaram para a Premier League os melhores treinadores do mundo (Mourinho, Guardiola, Conte, Klopp, Wenger, Ranieri,…); e, com certeza, vai ser onde os melhores jogadores do mundo vão querer estar (até os jogadores do Real Madrid e Barcelona se vão roer de inveja). Com o seu “arqui-inimigo” Pep, no mesmo clube da cidade, Mourinho vai ter o maior desafio da sua carreira: vencer num clube em fase de transição, com a herança de Ferguson aos ombros, e estando perante um grupo de adversários temível e igualmente com muitos milhões para investir. Neste cenário, só os melhores conseguem vencer.

A minha opinião, é que na última temporada de Mourinho no Chelsea, faltou garra, faltou vontade, faltou paixão e faltou querer. São esses ingredientes que de certeza não vão faltar. Se a isso Mourinho conseguir acrescentar vitórias e o “saber ganhar”, criam-se as condições para uma longa estadia em Manchester.

Se um dia Steve Jobs voltou para a Apple porque fazia todo o sentido, Mourinho foi para Manchester. Está certo. Para mim faz sentido. Para os Deuses do Futebol também.

PS- Em jeito de motivação para o Europeu, com esta notícia confirma-se: os Deuses do Futebol falam português. Os brasileiros sempre souberam isso, Eusébio, Figo, Ronaldo e Mourinho também. Os portugueses agora também sabem, e se não sabem deviam.

Images: http://www.manutd.com

 

 

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Frases da semana: As “botefadas” do Soares e o “fundo” azul e branco

O caso das “bofetadas” do já confirmado ex-Ministro da Cultura João Soares e o “batemos no fundo” de Jorge Nuno Pinto da Costa, em entrevista ao Porto Canal marcam, em definitivo, o final desta semana. Duas frases que merecem a minha atenção por motivos diferentes.

A situação mais surreal, é sem dúvida, a de João Soares que às 06h12 da manhã decide que Augusto M. Seabra e Vasco Pulido Valente merecem umas “bofetadas” logo a começar o dia. Quer dizer, não é a começar o dia, é quando se c(r)uzarem com ele (e não vou sequer abordar as gralhas e a questão da acentuação). Não sei se João Soares, agora que já não é ministro, vai adotar essa estratégia “obelixiana” de ir de tabefe em tabefe e despachar os mais ácidos cronistas portugueses (achava eu que a PAF tinha acabado).  Ou se por outro lado, vai decidir ameaçar todos os portugueses que ficaram felizes com a sua demissão, se for o caso, então o número deve ascender aos milhões.

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João Soares acordou bem cedo para o Facebook e escreve um post a merecer revisão ortográfica.

Quero frisar que não questiono a sua liberdade de expressão (nem ele deveria questionar a dos cronistas), porém dado o seu cargo político e sua longa experiência nestas lidas, teria sido aconselhável outro tento na língua, para, usando o seu próprio termo, não “bolçar” estes comentários para uma página de Facebook, ou como diria Habermas, para a esfera pública. Já era tempo dos políticos saberem que as redes sociais são para ser usadas com critério: no tom, no rigor, na clareza, na educação e, na gramática, é claro.

“O hábito não faz o monge”, nem o ministério faz o ministro.

Além do mais, às 06h00 da manhã, dificilmente poderíamos considerar João Soares vítima de um repasto ou jantar mais regado. (No meu íntimo pergunto: quem é que genuinamente se lembra de publicar coisas daquelas às 06h12?).

Até para um assessor de comunicação não deve ser fácil acordar tão cedo para evitar tal insanidade. Porém, se eles existem, é também para isto: evitar que a comunicação política e pública se torne leviana, impulsiva, egocêntrica e insana.

O pedido desculpas chegou tarde e a demissão foi “naturalmente” aceite. Soares fez um haraquíri sem honra. O país agradece, creio que António Costa também. 

Passando ao universo azul e branco, Pinto da Costa brindou o universo portista com uma entrevista recheada e embrulhada na palavra caráter. Palavra essa repetida vezes sem conta. De sublinhar a postura incisiva e determinada do presidente dos Dragões – como há muito não se via. A entrevista surge num momento importante, em que a voz de Pinto da Costa era mais do que necessária para amenizar a crise.

Apesar de olhar para a entrevista como uma boa resposta para o cenário de crise que se vive nas Antas, a meu ver há dois aspetos em que a comunicação poderia ter sido mais assertiva: 1) O uso do termo (sound bite) “bater no fundo”. É forte, mas vai fazer (ou melhor fez) manchetes e tirou impacto à palavra “caráter” tão usada ao longo da entrevista. Só o jornal O Jogo optou pela via do caráter. Além disso, o “fundo” é um termo relativo.  Às vezes é possível ainda ir mais fundo do que se imaginava. Não gosto do termo, não gosto da expressão. Gosto do assumir dos erros, da frontalidade, mas não aconselho o uso de uma palavra que vai pulular o universo azul e branco durante semanas e semanas. Há formas igualmente incisivas e eficazes de dizer isso. Não é porque perdeu com o Tondela que o FC Porto bateu no fundo. Já vi derrotas mais embaraçosas. Se está no fundo, já o estaria bem antes desta derrota. Reforço, não usaria essa palavra, mesmo que ela seja dita e repetida vezes sem conta nas redes sociais.

Em tom de conclusão, uma ótima entrevista pode ficar a dever a si própria o uso de uma frase má. “Se o hábito não faz o monge”, uma frase pode muito bem fazer uma entrevista.

 

imagem: ohomeminvisivel.com

 

 

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Já nada é segredo: as leaks, o big data e a reputação

Nada mais é segredo, ou quase nada. Segredo (e não vou usar o termo privado), em muito pouco tempo, passará apenas a ser aquilo que guardamos para nós, até que um vírus ou um outro qualquer sistema de data mining aceda ao nosso cérebro e faça um simples rastreio do que pensamos e do que sentimos em qualquer momento do nosso dia. Conseguem imaginar a nuvem de palavras mentais que produzimos a cada minuto? Imaginem agora uma “backdoor” uma porta dos fundos para poder entrar no território mais inóspito do nosso ser. Estão preparados?

Quando tudo pode ser convertido em código, em zeros e uns, em que tudo aquilo que fazemos passa a ser monitorizado por alguém, nada mais é igual. A esfera pública de que fala Habermas é cada vez mais um enorme ciberespaço povoado pela partilha e  de conteúdos pessoais que estão algures a ser monitorizados. Estar ligado, estar online, significa aceitar a exposição de que alguém, ou uma qualquer máquina no outro lado do planeta, saiba mais sobre nós do que nós mesmo. Máquinas, softwares que formam padrões, que nos categorizam e que decidem o que nos mostrar, que nos ensinam o que gostar, e o que fazer a seguir. Chamemos-lhe manipulação, chamemos persuasão, chamemos intrusão. Não importa. Regular isto é quase impossível, é massivo, é global, é provavelmente o futuro de uma inteligência coletiva que se forma através das cada vez mais intricadas redes de informação.

Como pessoa, profissional e professor de comunicação, da comunicação das organizações (ou das relações públicas) ou da comunicação empresarial , da gestão de marcas e da reputação olho para este fenómeno por dois prismas antagónicos:

1. Por um lado, fascina-me a capacidade que as marcas, as empresas têm para cada vez mais interagirem com os seus públicos.  Uma conversa que pode, de facto, levar a uma evolução mútua, a novos caminhos e novas oportunidades para públicos e empresas. O potencial para gerir o relacionamento do cliente de forma personalizada, do conhecimento partir para ações que tragam valor para o cliente e que tornem essa relação lucrativa. Quando bem usado, é inegável este potencial. No entanto, é importante que todos os consumidores tenham a percepção de que quando usam o seu “Cartão Continente” para ter promoções, eles estão, na verdade, a “vender” os seus dados que serão usados para futuras ações. Quem diz o Continente, diz o Facebook, o Google ou qualquer outro site que instale cookies no nosso computador. Nem nos damos ao trabalho de ler o que é que esse cookie faz.

2. O outro ponto de vista é um pouco mais aterrador. A verdade é que não temos uma noção concreta do que é que está a ser gravado, monitorizado. Sabemos apenas que é provável que esteja a acontecer. Hoje mais que ontem e amanhã mais do que hoje. Se para uma pessoa comum isto tem algo de perverso, para as organizações ainda mais. As fugas de informação (as leaks) estão apenas a um “click” de distância, basta uma partilha, uma ação planeada, uma ação impulsiva, um ataque pirata e, pronto, lá está toda a vida da organização sob o escrutínio global dos media, das redes sociais, de nós.

 Quando nem os bilionários estão a salvo, quase ninguém está. Talvez a total privacidade seja algo que nem o dinheiro consegue comprar nos dias de hoje.

vladimir-putin-desktop-hd-wallpapers-hdwallwide-comDo ponto de vista da comunicação estratégica, as fugas de informação – as leaks (das wikileaks, ao football leaks, aos Luxleaks, aos Panama Papers) são um aspeto a ter em consideração como situações de potencial crise que podem afetar a reputação de qualquer organização ou pessoa. O que me parece que falta questionar (o meu sentimento quanto às Leaks é profundamente ambivalente) é como é que estas fugas acontecem, quem beneficiam e qual o objetivo por detrás destes atos.

Vladimir Putin é um dos políticos mais lesados pela notícia dos Panama Papers. Se somarmos a isto a provável ausência da equipa russa de atletismo dos Jogos Olímpicos, a “polémica” situação de doping de Sharapova, a perda da influência na FIFA com a queda de Blatter…Algo parece estar a acontecer.

Já alguém se perguntou quantas personalidades de nacionalidade americana apareceram associadas a este escândalo? Tem alguém verdadeiramente questionado, por exemplo, como é que contratos de futebolistas e transferências privadas aparecem em público? Ou vamos apenas aceitar que é apenas divertido e interessante saber. Será que tudo tem mesmo que ser público? Haverá interesses envolvidos?

É tão revoltante ver bilionários a fugir aos impostos, como deveria ser ainda mais revoltante a existência dos off-shores (se eles existem, quem é que que os usava? a classe média?!). Mais, é ilegal? Imoral é. Como será também importante questionar a imoralidade do nosso próprio mundo em que um jogador de futebol ganha mais que um médico, ou um bombeiro que arrisca a vida para salvar os outros.

Que fique claro que não procuro sequer defender o indefensável. O que pretendo afirmar é que não devemos olhar para estes fenómenos de forma inocente e devemos observar a forma como as diferentes instituições, organizações e personalidades o vão gerir. Recomendo ter um olhar global e atento sobre o que vai acontecendo.

Por último, tenho dificuldade em aceitar, porque tenho lido, que os Panama Papers se tratam do verdadeiro jornalismo de investigação, o agora “data journalism”. Tenho dúvidas. Tenho muitas dúvidas.

 

Imagem: http://www.hdwallwide.com/

 

 

 

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Trump para principiantes

A cada vitória de Donald Trump nas eleições primárias americanas, vejo nas redes sociais um coro de partilhas, posts e comentários de incredulidade e até de alguma revolta. “Como é possível?”, perguntam alguns, entre comentários mais jocosos a um candidato que é autor de algumas das frases mais infelizes que ouvi em três décadas e meia de existência. Não as vou proferir, elas andam por aí e é demasiado fácil encontrá-las. Agora ficar surpreendido com o facto de o multimilionário americano estar à frente nas eleições primárias (do lado republicano), isso não estou, não fico e é fácil explicar porquê.

Talvez a única coisa que me surpreenda em Trump é a sua capacidade para ir mais longe do que aquilo que alguma pensei ser possível nos tempos de hoje

O primeiro ponto (1) que é importante focar é simples: os americanos têm uma cultura muito própria e, no geral, não pensam e não sentem as coisas como nós portugueses e até europeus. Depois, está também na altura de abandonarmos o preconceito de que o advento das redes sociais, que a sociedade da informação, que a sociedade “ocidental”, e que todo o conhecimento à nossa disposição nos torna naturalmente mais evoluídos, mais compreensivos, mais conhecedores, mais inteligentes e mais cultos. No mundo perfeito isso seria verdade, num mundo em que cada dia tivesse no mínimo 72 horas para conseguirmos absorver tudo aquilo que acontece à nossa volta. Como isso não é verdade, estamos cada vez mais sensíveis ao sound byte, aos títulos ou headlines, aos primeiros 30 segundos de um vídeo que tem no mínimo três e que não vamos visualizar até ao fim, e claro, à “verdade” dos opinion makers (ou líderes de opinião) que facilmente nos dizem o que devemos pensar sobre determinado assunto (2). Estes tenderão a ser selecionados por nós de acordo com a cor política, o saber falar, o life style ou o estilo de vida que representam, ou outro motivo qualquer mais ou menos óbvio, como a cor clubística.

O somatório destes dois primeiros pontos faz com que estejamos demasiados sensíveis e expostos a canais de comunicação e a uma partilha de informação, baseada em instantes em impulsos comunicacionais básicos, que levam a uma rápida e explosiva interpretação e, por sua vez, a uma simplificada criação de sentido e significado. Se a este ponto adicionarmos o ingrediente que é uma audiência ávida por um certo tipo de mensagens, estão criadas as condições para que as declarações de Trump proliferem. Lá porque nas redes sociais não vemos ninguém a idolatrar Trump (pelo menos com a mesma frequência com que este é gozado ou odiado), não quer dizer que este não tenha imensos e silenciosos apoiantes. Marcelo Rebelo de Sousa não era propriamente acarinhado nas redes sociais e ganhou facilmente as eleições em Portugal. Voltando a Trump, as suas mensagens são simples, claras, objetivas. Goste-se ou não, são fortes. É fácil de perceber, é incisivo e tem audiência.

Trump

O próximo ponto que vou referir é sobre a marca Trump, isto é, a sua persona, o que esta representa para o seu eleitorado. A este nível o que podemos dizer é que há coerência, Trump representa um arquétipo fácil de identificar – uma espécie de self-made man que se tornou milionário e que pensa apenas e só pela sua cabeça. A narrativa é simples.

Contra tudo e contra todos se tiver que ser, Trump apresenta-se como um individualista com toques de narcisismo que só pensa em vencer, que só pensa numa América vencedora que subjuga os seus inimigos. Ganhar, ganhar, ganhar, seja através do medo, da divisão, das armas ou da guerra. Tanto faz. Mas, ganhar.

Um discurso que o americano de orgulho ferido que sente que a América não é a super potência de há duas décadas aparentemente quer ouvir.O americano que quer ter uma arma em casa para se defender, porque faz parte do seu direito. Um americano desempregado que não quer fluxo migratório para o seu país. A narrativa está aí, é horrível, mas existe e é consistente, pelo menos para um nicho suficientemente grande e capaz de colocar Trump a disputar a presidência americana.

Esta narrativa funciona para a personagem de Trump que encarna o seu personagem, o seu arquétipo como ninguém, tornando fácil perceber a sua marca, tornando muito fácil à sua audiência identificar-se com ele. As constantes partilhas dos seus sound bytes ajudam… e de que maneira.

Por último, e em dia de Super Terça-feira (para quem saber o que é:  http://www.publico.pt/mundo/noticia/o-que-e-a-super-tercafeira-1724788), em poucos dias vamos saber se veremos Trump na corrida à presidência americana, mas está na altura de deixarmos de olhar para ele como um ser inocente ou incoerente. Ele sabe o que quer e como quer. Não acredito que tenha chegado onde chegou baseado apenas no ódio e ideais xenófobos (pelo que li tem importantes negócios no Médio Oriente) e também não acredito que ele acredite em tudo o que diz e que caso seja eleito faço tudo o que disse. Acredito sim que se Trump tiver que mentir mente e que a sua comunicação vai continuar a ser dura, voraz, explosiva e polémica – está na génese do sucesso que tem tido. Porém, espero sinceramente que os americanos optem por outra via.

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